Cansaço que não é do corpo
Tem dias em que o corpo acorda, mas o resto fica deitado
Os olhos abrem, os pés tocam o chão, o café é preparado quase no automático. Tudo funciona como deveria. Músculos respondem, compromissos são cumpridos, palavras são ditas nos momentos certos. Por fora, ninguém suspeita de nada.
Mas por dentro existe um peso que não tem nome clínico nem localização exata. Não dói em lugar nenhum e, ao mesmo tempo, dói em tudo.
Não é sono. Dormir não resolve.
Não é preguiça. Descansar não cura.
É um cansaço que vem de sustentar silêncios, de engolir respostas, de adiar versões mais honestas de si mesmo.
Cansaço de pensar demais antes de falar.
Cansaço de parecer forte quando só se queria ser compreendido.
Cansaço de carregar expectativas que ninguém lembra de ter colocado ali.
É estranho como esse tipo de exaustão não pede cama, pede pausa. Não pede férias, pede permissão para não dar conta de tudo.
Ainda assim, a vida segue cobrando presença. E a gente vai. Responde mensagens. Cumpre horários. Sorri quando necessário. Não porque está bem, mas porque aprendeu a funcionar mesmo em modo economia de energia.
Talvez o verdadeiro descanso não esteja em parar o corpo, mas em permitir que a alma baixe as armas por alguns instantes. Não explicar, não justificar, não corresponder.
Só existir sem desempenho.
E, quem sabe, nesse breve intervalo em que ninguém exige nada, perceber que nem todo cansaço precisa ser vencido. Alguns só precisam ser reconhecidos — como quem finalmente admite: “sim, está pesado”.