CAPÍTULO 1 — O Menino Que Não Queria Ser Rei

Eduardo buscava refúgio na biblioteca como quem se esconde de um predador que ronda do lado de fora. O castelo fervilhava em preparativos, mas ali dentro só havia o som grave das paredes antigas respirando. Desde a morte de Augusto, o silêncio se tornara sua única companhia fiel.

O jovem herdeiro sentia como se carregasse dentro do peito um poço que nunca enchia. Tentava, de algum modo, achar respostas nos livros que o cercavam — respostas sobre força, liderança, coragem — coisas que ele acreditava não possuir.

Sobre a mesa repousava o enorme tomo de Mareus Fileno, um historiador conhecido por sua escrita brutalmente honesta. Eduardo abriu o volume com mãos trêmulas. Sabia o que estava prestes a encontrar — mas nunca estava preparado.

FERNANDO, O DEVORADOR NU

Mareus descrevia Fernando, O Ousado, não como um herói, mas como um animal sagrado da guerra, um homem que queimara tudo dentro de si para salvar seu povo. Os Ohan-Dur, povo bárbaro do norte, sequestraram trinta moradores de Alto-Mirador: mulheres, crianças, alguns idosos. Amontoaram todos dentro de uma jaula improvisada, alimentando-os apenas para mantê-los vivos o suficiente para a negociação.

Marduk Orhan, o líder inimigo, enviara sua exigência: que o rei de Heleno viesse nu, sem armas, caminhando sozinho até o centro do acampamento para se curvar. Só assim libertaria os reféns.

Fernando aceitou — não por honra, mas por desespero. Havia perdido um filho meses antes, consumido por febre. Desde então, vivia como se buscasse motivos para morrer lutando. Não temia humilhação. Não temia dor. Temia apenas falhar.

Quando Fernando entrou no acampamento, todos os guerreiros Ohan-Dur riram. Chamaram-no de fraco, de maluco, de rei quebrado. Jogaram cinzas nos pés dele. Cuspiram. O ofenderam com piadas sobre sua esposa e sobre o filho morto. E Fernando, imóvel, aceitou.

Mas quando um guarda avançou para prendê-lo, algo dentro dele se rompeu.

O rei se lançou contra o homem com uma velocidade que nenhum dos presentes conseguiu compreender. Agarrou-o pela mandíbula e arrancou-lhe um pedaço da face com os dentes. O sangue jorrou quente no peito nu de Fernando, que o lambeu como se fosse água.

Os Ohan-Dur recuaram, horrorizados. Mas Fernando avançou.

Ele mordeu, rasgou, esmagou crânios como quem esmaga frutas. Um inimigo tentou fugir, mas Fernando o alcançou pela perna, mordeu o tendão e arrastou-o pelo chão antes de torcer-lhe o pescoço. Outro tentou perfurá-lo com uma adaga, mas Fernando agarrou o braço e o mordeu até arrancar um pedaço.

Diziam que naquela manhã o rei de Heleno já não parecia humano. Era como se o luto tivesse devorado sua alma e o deixado apenas com dentes e ódio.

Fernando matou oito homens antes de ser derrubado por Kheron Tal, capitão dos Ohan-Dur. A lança atravessou sua nuca, mas mesmo caído, Fernando ainda tentou morder o agressor.

A morte dele foi o sinal. O exército de Heleno, escondido na ravina próxima, avançou com fúria, massacrando os inimigos. O sangue correu em trilhas espessas pelo chão batido. Quando a poeira assentou, os reféns estavam vivos.

Eduardo fechou o livro por um momento. O gosto metálico das palavras ainda estava preso em sua garganta. Ele jamais seria capaz daquilo. Jamais desejaria ser.

LEONARDO, O SENHOR DA CAVEIRA

Leonardo era descrito como a tempestade que vem depois de um dia abafado — inevitável, destrutiva e carregada de eletricidade. Seu irmão, Marconi, fora sequestrado pelos Rok’Tash. Esses mercenários viviam no deserto de pedra, e tinham fama de mutilar reféns para acelerar negociações.

E assim fizeram.

Mandaram ao castelo uma caixa de madeira. Dentro, a orelha direita de Marconi, envolvida em gaze, ainda úmida. No mesmo pacote, a mão esquerda dele, com os ossos do pulso expostos após um corte bruto. Junto, um bilhete simples: ouro ou morte.

Leonardo não respondeu com palavras. Respondeu com guerra.

No ataque aos Rok’Tash, Mareus descreve que corpos eram partidos ao meio com a força de sua lâmina. Leonardo golpeava com precisão cirúrgica, como se cada movimento fosse ensinado pelos próprios deuses. Ele arrancou braços, esmagou rostos, atravessou abdomens com sua espada larga.

Quando encontrou Gavriel Naraq, o líder inimigo, Leonardo o derrubou com um chute no joelho que estalou alto como galho seco. O homem caiu gritando. Leonardo segurou-o pelos cabelos, puxou sua cabeça para trás e o decapitou com dois golpes decisivos.

Mas não parou aí.

Mandou esvaziar o crânio, limpá-lo e reforçá-lo com anéis de prata. Transformou-o em taça. E diante dos sobreviventes Rok’Tash, bebeu hidromel lentamente daquele crânio — enquanto Marconi, fraco, observava com lágrimas secas.

Leonardo passou de “O Pacificador” a “Senhor da Caveira”. Claro, não eram todos que ousavam usar o último epíteto.

Eduardo engoliu seco. Sentia o estômago embrulhar. Ele admirava a coragem… mas também sentia medo dessas histórias. Um medo frio que subia pelas costas.

RÔMULO, O BISPO

Rômulo, seu avô, era o mais assustador dos três — não por carnificina, mas por silêncio. Ele fora o arquiteto da Noite Vermelha da Baía das Asas, quando três navios Mar’Jin foram invadidos e esvaziados de vida sem que um único grito fosse ouvido além das ondas.

Rômulo escolheu vinte homens. Entre eles, Ysaac Ventro, ainda não chamado de Fantasma. Mareus descreve a travessia até os navios como um desfile de sombras na água negra.

No primeiro navio, Rômulo cortou gargantas com movimentos tão rápidos que o sangue mal teve tempo de sujar o convés antes de escorrer por entre as tábuas. No segundo, atravessou o peito de um soldado adormecido e segurou-lhe a boca até que o coração parasse.

No terceiro navio, um guerreiro despertou. Tentou gritar. Rômulo o ergueu pelo pescoço e empurrou-o contra o mastro. A lâmina entrou por baixo da costela, subindo até o ombro. O corpo escorregou, deixando um rastro escuro de sangue espesso.

Quando o sol nasceu, os três navios flutuavam silenciosos, carregando apenas corpos.

Foi naquela noite que Ysaac ganhou o título de Fantasma, pois lutou como se estivesse morto por dentro — e Rômulo ganhou o nome de Bispo, o homem que movia peças com precisão divina, também conhecido como “O Sábio”.

EDUARDO — O SUCESSOR TARDIO

Eduardo fechou o tomo com mãos trêmulas. Sentia que o livro inteiro pulsava, como se as histórias ali dentro quisessem saltar para fora e engoli-lo. Ele não era como eles. Não queria ser.

O silêncio da biblioteca pesava mais do que qualquer armadura que pudesse vestir. E, naquele silêncio, a memória de outro rei emergia — não apenas Fernando, Leonardo ou Rômulo, mas Augusto, O Amado, seu pai.

Augusto não fora lembrado por brutalidade, mas por algo ainda mais difícil de alcançar: ordem. Trouxera paz a Heleno da única forma que os reinos vizinhos entendiam — esmagando cada levante com precisão militar impecável, mas poupando civis, recompensando cidades leais e punindo traidores sem crueldade desnecessária. Augusto era admirado. Temido também, mas admirado primeiro.

Mareus escrevera que Augusto possuía “a rara habilidade de fazer o povo sentir que a guerra estava distante, mesmo quando marchava à porta”. Foi esse equilíbrio que deu a ele o título de O Amado.

E Eduardo ainda achava que deveria ser apenas o filho mais velho desse rei. Não estava pronto para tomar seu lugar

Mas, quando Augusto, ainda forte e saudável, caiu morto durante o sono — sem aviso, sem doença, sem que os médicos encontrassem marca alguma — Eduardo era primeiro nome na linha sucessória. O castelo chorou. O povo lamentou. E Selina… Selina chorou com um luto que se derramava mais ácido do que triste.

Ela não gritava, não desabava, não pedia consolo. Apenas vagava pelos corredores como uma estátua rachada, sempre com os olhos marejados e a boca crispada em uma dor silenciosa. A beleza dela parecia ainda maior, mas ferida. Como algo que pede para ser tocado, mas sangra se alguém tentar.

Eduardo sabia que não entendia inteiramente o luto dela — ninguém parecia entender. Mas também não ousava fazer perguntas. Selina era delicada demais e, ao mesmo tempo, distante demais.

E agora o destino jogava mais uma responsabilidade sobre ele: Eduardo seria coroado no mesmo dia de seu casamento arranjado com Elise.

Elise, com seus olhos sempre esperançosos, acreditava que aquele seria o início de um novo tempo para Heleno. Ela sorria ao falar dos preparativos, ao escolher as cores das flores, ao escrever votos que Eduardo ainda nem tivera coragem de começar.

Ele não conseguia corresponder ao entusiasmo dela. Não porque não a estimasse — Elise era luz, era calma, era a única parte da vida dele que parecia suave. Mas, quanto mais ela sonhava, mais ele temia decepcioná-la.

Enquanto os antigos reis se erguiam em sua mente como montanhas, Augusto surgia como a última sombra luminosa — e Eduardo se via como um rio raso, fraco, transparente demais.

Ainda assim, enquanto o vitral azul iluminava seu rosto cansado, algo sutil dentro dele se recusava a desaparecer. Uma chama pequena, quase invisível — mas resistente.

Talvez o reino precisasse disso. Talvez Heleno, tão acostumado à brutalidade, precisasse de alguém que ainda enxergasse humanidade. Alguém que não fosse feito de dentes, lâminas ou silêncio de morte.

Eduardo respirou fundo, sentindo o peso e a esperança se misturarem como duas forças antigas que finalmente se encontravam. O futuro o chamava — e ele tremia ao atender.