CAPÍTULO 10 — Fogo no Céu
A música ainda ecoava pelo salão quando Eduardo percebeu que já não ouvia nada do que estavam dizendo.
As vozes se misturavam em torno dele como água corrente: risos, taças tocando umas nas outras, comentários sobre o casamento que se aproximava, sobre o vinho de Thalen, sobre como Heleno parecia respirar aliviado depois de dias de luto.
Eduardo ergueu os olhos para as janelas altas do salão. Do lado de fora, o céu noturno estava limpo, escuro como tinta derramada sobre as torres brancas do castelo. Nenhuma nuvem. Nenhum vento.
Ainda assim, algo dentro dele estava inquieto.
— Está pensando demais outra vez — disse Darel ao seu lado, girando o vinho na taça como se o mundo inteiro pudesse ser resolvido com um bom gole.
Eduardo sorriu de leve.
— Eu estou prestes a ser coroado e a me casar no mesmo dia — respondeu. — Acho que pensar demais é o mínimo esperado.
Darel riu.
— Reis não pensam demais. Reis parecem saber o que estão fazendo. É diferente.
Felipe, do outro lado da mesa, ergueu a taça.
— Então brindemos ao talento de Eduardo para parecer confiante.
— Brindemos — disse Darel.
As taças se tocaram.
Eduardo bebeu apenas um gole. O vinho era excelente, mas não conseguia apreciá‑lo. Sentia como se algo estivesse fora do lugar, embora não conseguisse dizer o quê.
Talvez fosse apenas cansaço.
O dia tinha sido longo. Conselhos, preparativos, conversas que pareciam não terminar nunca. Cada pessoa no castelo parecia ter uma expectativa diferente sobre o que ele deveria ser.
Rei.
Marido.
Símbolo.
Eduardo apoiou a taça na mesa.
— Vou respirar um pouco — disse ele.
Darel ergueu uma sobrancelha.
— Fugindo?
— Recuando estrategicamente.
Felipe riu.
— A biblioteca?
Eduardo assentiu.
— Sempre a biblioteca.
Darel bateu de leve no ombro dele.
— Não demore. Se desaparecer por muito tempo, Selina manda meio castelo atrás de você.
— Isso seria um espetáculo.
— Seria irritante — corrigiu Darel.
Eduardo se levantou.
Por um instante, observou os dois amigos: Felipe rindo de algo que Darel dizia, os criados atravessando o salão com bandejas, a música voltando a subir em volume.
Parecia um momento comum.
E talvez fosse exatamente isso que o incomodava.
Eduardo inclinou a cabeça em despedida.
— Guardem um pouco desse vinho para mim.
— Só se você voltar rápido — respondeu Felipe.
— Ou vamos beber tudo.
Eduardo deixou o salão com um sorriso leve.
Felipe saiu logo depois, em direção à adega. Era seu dever garantir que não houvesse imprevistos referentes ao vinho de Thalen.
Assim que Eduardo atravessou as portas, o som da festa ficou para trás como uma onda que recua da areia. O corredor estava mais frio, mais silencioso. As tochas nas paredes projetavam sombras longas que se moviam devagar sobre o mármore.
Ele caminhou sozinho.
Cada passo parecia afastá‑lo do peso das expectativas que o aguardavam do outro lado daquela noite.
A biblioteca ficava no extremo oeste do castelo, onde as paredes eram mais antigas e o silêncio parecia morar permanentemente entre os livros.
Era o único lugar em Heleno onde Eduardo ainda se sentia apenas Eduardo.
Não príncipe.
Não futuro rei.
Apenas um homem tentando entender o mundo antes que o mundo começasse a exigir respostas.
A ausência de Eduardo foi notada por poucos.
No salão, a música continuava. Cordas suaves misturavam-se ao tilintar constante das taças, enquanto criados cruzavam o espaço com bandejas de vinho e pratos ainda quentes.
Para a maioria dos convidados, a noite era apenas mais uma celebração necessária: o reino voltando a respirar depois do luto, o casamento se aproximando, a promessa de um novo reinado.
Selina permanecia à mesa principal.
Conversava com naturalidade estudada, inclinando a cabeça na medida certa para cada nobre que lhe dirigia a palavra. O luto que vestia parecia digno demais para ser questionado.
— O vinho de Thalen está excelente este ano — comentou Cássian dos Ventos, erguendo a taça à luz das tochas.
— Felipe tem orgulho disso — respondeu Darel com um sorriso relaxado. — E razão para ter.
Risos leves circularam pela mesa.
Nada parecia fora de lugar.
A música subia e descia como uma maré tranquila. Criados passavam. Taças se enchiam novamente. Conversas deslizavam de política para trivialidades com a facilidade de quem deseja esquecer o peso da coroa por algumas horas.
Selina observava tudo com olhos calmos.
Para qualquer um no salão, aquela era apenas uma noite de vinho e promessas.
Para ela, era apenas mais uma peça sendo movida no tabuleiro.
Um criado atravessava o espaço com pressa quando esbarrou no ombro de Cássian.
A taça escorregou de sua mão.
O vidro tocou o mármore com um som claro, e o vinho espalhou-se pelo chão.
— Perdão, senhor — disse o criado, já se inclinando.
Cássian fez um gesto leve com a mão.
— Não foi nada.
Ele se abaixou e pegou a taça.
Quando ergueu os olhos, encontrou os de Ysaac.
Nenhum dos dois reagiu.
O olhar durou apenas um instante — tempo suficiente para O Fantasma entender tudo.
Ysaac virou-se imediatamente para Hadrian.
— O rei.
Hadrian não fez perguntas.
Ysaac já estava em movimento.
Antes de alcançar a porta do salão, seus olhos voltaram instintivamente para Cássian.
Desta vez, Cássian sorria.
Ysaac correu.
As trombetas soaram.
Tarde.
O primeiro toque ecoou pelos corredores do castelo como um aviso que já havia perdido o momento certo. O segundo veio mais longo, mais urgente, e então outro respondeu das muralhas. Não era ordem. Era alarme.
Ysaac já corria.
Enquanto atravessava o corredor, o som das trombetas misturava‑se a gritos vindos do pátio e ao bater apressado de botas de soldados despertando para um combate que já havia começado sem eles.
Ele passou por uma janela estreita e algo no horizonte o fez virar o rosto.
O céu estava vermelho.
Não era o pôr do sol.
Era fogo.
No campo abaixo das muralhas, os acampamentos do exército ardiam. Fileiras de tendas estavam abertas como feridas no escuro, iluminadas pelas chamas que se espalhavam de lona em lona. Homens corriam entre as fogueiras improvisadas, tentando organizar escudos, puxar cavalos aterrorizados, acordar companheiros que ainda saíam das barracas meio vestidos.
Então as sombras começaram a cortar o céu.
Primeiro uma.
Depois três.
Depois muitas.
O som chegou um instante depois — o bater poderoso das asas atravessando o ar como velas enormes sendo puxadas contra o vento.
Os Elar mergulhavam.
Um grupo de soldados conseguiu formar uma linha improvisada perto de uma fileira de estacas. Escudos erguidos. Lanças apontadas para o alto.
Tarde demais.
Um Elar desceu em velocidade brutal e atingiu o chão entre eles com a força de um projétil. A lâmina curva de sua espada abriu o primeiro homem do ombro até o peito antes que o resto da linha entendesse o que estava acontecendo.
Outro Elar caiu logo atrás.
Não pousou. Apenas passou.
A lança de um soldado subiu para interceptá‑lo. O alado desviou no último instante, torcendo o corpo no ar com precisão impossível para um homem sem asas. A espada dele desceu no mesmo movimento, cortando o braço do soldado que ainda segurava a arma.
O grito se perdeu no caos.
Mais dois mergulhos atravessaram o acampamento.
Um cavaleiro recém‑acordado conseguiu montar e erguer o escudo. A flecha do Elar o atingiu antes que o cavalo desse três passos. O impacto o derrubou da sela como se alguém tivesse puxado uma corda invisível.
Arqueiros humanos começaram a responder.
Flechas subiam em arcos desesperados contra o céu vermelho. Algumas atingiam asas, outras passavam longe demais. Mas os Elar não permaneciam no chão tempo suficiente para serem cercados.
Eles mergulhavam.
Golpeavam.
Subiam novamente.
Um deles agarrou um soldado pelo cinto enquanto passava. O homem tentou segurar o próprio escudo, mas acabou largando a arma quando os dois começaram a subir. Do alto, o Elar o soltou.
O corpo caiu girando e desapareceu entre duas tendas em chamas.
Outro combate se formava perto de uma carroça de suprimentos.
Três soldados haviam conseguido cercar um alado que pousara pesado demais. Um deles avançou com a lança, outro com espada curta. O terceiro tentava flanquear.
O Elar recuou dois passos.
Então avançou.
A primeira estocada desviou a lança. A segunda abriu a garganta do homem que vinha pela esquerda. Antes que o terceiro reagisse, o alado já havia batido as asas e voltado ao ar, deixando apenas sangue e dois corpos no chão.
As trombetas continuavam tocando.
Agora frenéticas.
Agora inúteis.
Mais fogo se espalhava pelo campo.
Mais sombras cruzavam o céu.
Ysaac afastou‑se da janela.
O ataque havia começado.
O primeiro vidro estilhaçou-se antes que alguém no salão entendesse o que estava acontecendo.
O som cortou a música e as conversas como uma lâmina. Alguns convidados viraram a cabeça, confusos, esperando um criado apressado ou um acidente trivial.
Não era.
Uma sombra atravessou a janela aberta e caiu entre duas mesas com o peso de um corpo treinado para matar. As asas se abriram por um instante no ar quente do salão antes de se recolherem novamente.
Outra janela explodiu.
Depois outra.
O salão mergulhou em gritos.
Cadeiras tombaram. Taças caíram no chão de pedra. A música morreu no meio de uma nota longa.
Noel foi o primeiro a entender.
Seus olhos encontraram Cássian.
A adaga já estava na mão do emissário.
Noel empurrou a mesa diante de si com força suficiente para derrubar pratos e jarros de vinho. A mão dele fechou-se sobre uma das facas de carne esquecidas na toalha branca.
— Alado! — gritou.
O salão congelou por um segundo.
Então tudo explodiu.
Cássian avançou primeiro.
A adaga cortou o ar em direção ao peito de Noel, mas o homem já vinha para frente como um touro. O golpe raspou o ombro dele e a faca de mesa desceu em resposta, obrigando Cássian a recuar um passo.
Mesas foram empurradas. Convidados se atropelavam tentando alcançar as portas. Um Elar que acabara de entrar pela janela pousou entre os dois combatentes.
Noel não hesitou.
A faca entrou sob a costela do alado com um golpe curto e brutal.
O corpo caiu entre as cadeiras quebradas.
Outro Elar avançou imediatamente, espada curta em punho. Noel girou o corpo pesado, desviando do primeiro golpe e atingindo o inimigo com a base da mesa virada, que esmagou o homem contra o chão antes que ele pudesse se levantar.
Cássian recuou um passo, os olhos avaliando a sala que já se tornava um campo de batalha.
Mais Elar atravessavam as janelas.
Guardas tentavam abrir caminho entre os convidados em pânico.
Darel já estava de pé.
A mão dele foi instintivamente para a espada que não estava ali — o jantar não permitia armas.
Foi então que Selina se aproximou.
Ela não gritou. Não correu.
Apenas tocou o braço dele.
— Seu irmão.
Darel virou a cabeça imediatamente.
O olhar dele encontrou o caos do salão por um instante — Noel lutando, asas batendo no ar, homens correndo — e então a decisão veio sem hesitação.
Ele correu.
O movimento dele abriu espaço entre convidados que fugiam em todas as direções. Taças quebravam sob botas apressadas. Um músico largou o instrumento no chão e tentou se esconder atrás de uma coluna.
Noel não olhou para trás.
O mundo dele havia se reduzido ao homem diante dele.
Cássian.
Outro Elar aterrissou pesadamente entre os dois, a espada curta já erguida.
Noel avançou antes que o alado pudesse ajustar o equilíbrio. No espaço apertado do salão, asas grandes eram mais obstáculo do que vantagem. A ponta da asa bateu numa cadeira virada e o guerreiro perdeu meio passo.
Foi o suficiente.
A faca de carne entrou no abdômen do Elar com um golpe brutal. Noel empurrou o corpo para o lado como quem remove um móvel do caminho.
Ao redor deles o salão se dissolvia em caos.
Alguns dos Elar que estavam sentados às mesas permaneciam imóveis por um instante, confusos. Um deles havia se levantado com o copo ainda na mão, olhando para as janelas quebradas como se tentasse entender de que lado da batalha deveria estar.
Outro recuava, claramente surpreso, enquanto um companheiro já desembainhava a espada.
Nem todos ali sabiam.
Nem todos esperavam aquilo.
Noel não se importava.
Um segundo atacante veio pela direita.
A lâmina raspou sua costela antes que ele conseguisse girar. Noel respondeu com o peso do corpo inteiro. O golpe da faca abriu o rosto do inimigo do nariz até a orelha.
O homem caiu sobre uma mesa derrubada.
Cássian observava.
Os olhos dele avaliavam a luta com frieza.
Noel era grande demais, forte demais, e naquele espaço fechado os Elar não podiam usar aquilo que os tornava realmente letais. As asas batiam em cadeiras, em colunas, em pessoas correndo. Saltos curtos substituíam o voo.
Noel avançou novamente.
Cássian recuou.
Mais dois passos.
Então saltou para cima de uma mesa virada. As asas abriram apenas o suficiente para lhe dar impulso.
Um único bater de asas.
E ele já estava na janela.
Noel viu apenas o movimento final.
Cássian desapareceu na noite.
Outro Elar tomou o lugar dele imediatamente.
A espada desceu.
Noel bloqueou com o antebraço e agarrou o atacante pela gola. O homem tentou bater as asas para se soltar, mas o espaço era pequeno demais.
Os dentes de Noel entraram em na garganta do alado.
O corpo caiu.
Foi então que veio o primeiro golpe pelas costas.
A lâmina atravessou o ombro de Noel.
Ele rugiu e girou com violência, agarrando o agressor pelo pescoço. Os dedos enormes fecharam-se como ferro.
O Elar tentou se libertar, chutando e batendo as asas contra uma mesa caída.
O estalo do pescoço foi seco.
O corpo caiu aos pés de Noel.
Mas agora eram muitos.
Três Elar o cercavam.
Um golpe abriu suas costas.
Outro rasgou seu flanco.
Noel avançou mesmo assim, tentando derrubar um deles apenas com o peso do próprio corpo.
Uma terceira lâmina entrou sob sua costela.
O gigante vacilou.
Por um instante pareceu que ainda avançaria.
Então o peso do sangue venceu.
Noel caiu entre mesas quebradas e taças estilhaçadas.
A batalha continuava ao redor.
Mas Noel não se levantou.
Brennar tentou reagir.
O velho comandante ergueu a voz acima do caos, o instinto de guerra falando antes da razão.
— Guardas—!
A palavra nunca terminou.
Um Elar atravessou o espaço com um passo rápido. A lâmina entrou curta e direta.
Brennar tombou ainda com a boca aberta.
Helder, que estava tentando defender a filha, viu a cena.
O choque durou apenas um segundo.
A mão dele alcançou a mesa mais próxima, onde uma faca longa de trinchar ainda repousava entre pratos derrubados.
Ele a agarrou.
Mas o gesto foi lento demais.
Um Elar que avançava pelo salão desviou do corpo caído de Noel e atacou no mesmo movimento. A espada entrou sob as costelas de Helder antes que ele pudesse erguer a arma.
A faca escorregou da mão dele.
O Senhor de Thalen caiu ao lado da mesa virada.
Elise gritou desesperada.
O salão agora era apenas ruído e movimento.
Gritos. Asas batendo contra colunas. Vidro triturado sob botas e metal.
Foi então que uma figura atravessou o caos.
Marcellus.
Ele não corria como os convidados que fugiam em pânico. Movia-se rápido, mas com propósito, desviando de mesas derrubadas e combatentes como alguém que já havia decidido para onde ir.
Por um instante sua silhueta foi iluminada pelas chamas que começavam a lamber as cortinas do salão.
Então ele desapareceu por uma das portas laterais.
Selina observou tudo.
O rosto dela permanecia imóvel, quase sereno, enquanto o salão desmoronava em torno dela.
Só quando Marcellus desapareceu ela se voltou para Elise.
A jovem ainda estava parada, os olhos presos na violência que tomava conta do jantar que, minutos antes, parecia seguro.
Selina segurou o braço dela.
— Elise.
A voz saiu urgente, baixa, firme.
— Eles vieram pela Pedra.
Elise piscou, tentando compreender.
— Se a pegarem, Eduardo está perdido — continuou Selina. — Você precisa tirá-la de lá.
O salão tremia ao redor delas com o choque das armas.
— Traga-a para mim — disse Selina. —Não confie em ninguém, está me ouvindo?
Elise assentiu sem perceber.
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.
Ela se virou e correu.
Atrás dela, o salão ainda rugia como uma fornalha aberta: aço contra aço, gritos, o bater pesado das asas. O cheiro de vinho derramado misturava-se agora ao de sangue.
Ela não olhou para trás.
Levava consigo um castiçal pesado que segurava como se aquilo pudesse ser sua salvação.
As palavras de Selina ecoavam em sua mente.
“Eles vieram pela Pedra.”
“Se a pegarem, Eduardo está perdido.”
“Você precisa tirá-la de lá.”
Elise atravessou o corredor quase escorregando no mármore polido. Um criado passou correndo na direção oposta, o rosto branco de terror. Mais adiante, dois guardas lutavam contra um Elar que havia conseguido entrar pelas galerias internas.
O alado recuava com dificuldade. As asas batiam contra as colunas ao redor e não conseguiam se abrir por completo. A espada dele cortava o ar em golpes curtos, rápidos, mas o espaço era apertado demais para qualquer vantagem verdadeira.
Um dos guardas caiu.
O outro tentou recuar.
Elise desviou da luta, colando-se à parede, e continuou correndo.
Não era com aquilo que ela precisava se preocupar.
A Pedra.
Selina dissera com tanta urgência.
“Não confie em ninguém.”
Elise apertou os olhos, tentando afastar o som da batalha que parecia persegui-la pelos corredores do castelo.
O Corredor Branco apareceu à frente como um corte de silêncio no meio do caos.
As paredes claras refletiam a luz das tochas, amplificando cada passo. O eco dos combates parecia distante ali, abafado pela espessura da pedra.
Elise diminuiu o passo sem perceber.
Foi então que as sombras surgiram.
Três Elar avançaram do outro lado do corredor.
Eles também pareciam ter chegado ali por acaso. Um deles olhou para os lados, avaliando o espaço.
Outro fixou os olhos em Elise.
A mão dele já descia para a espada.
Elise parou.
O coração batia tão forte que parecia sacudir o peito.
“Não confie em ninguém.”
O primeiro Elar deu um passo em sua direção.
Foi quando o Fantasma apareceu.
Nenhum som anunciou a chegada.
Apenas o brilho rápido de uma lâmina surgindo atrás do primeiro alado.
O golpe foi curto.
Preciso.
O Elar caiu antes de entender.
O segundo tentou girar, abrindo as asas por reflexo. O movimento bateu contra a parede do corredor e quebrou o equilíbrio dele.
Ysaac já estava sobre ele.
A lâmina entrou sob a costela e saiu no mesmo movimento.
O terceiro conseguiu erguer a espada.
O Fantasma desviou do golpe com um passo mínimo e respondeu com um corte que abriu o pescoço do inimigo.
O corpo caiu contra a parede branca.
O silêncio voltou ao corredor.
Elise estava imóvel.
Ysaac limpou a lâmina no manto de um dos mortos e começou a se virar.
“Não confie em ninguém.”
A frase de Selina voltou como um estilhaço.
Antes que pudesse pensar, Elise avançou.
O castiçal pesado que ela segurava desceu com toda a força contra a nuca de Ysaac.
O Fantasma caiu.
Elise permaneceu imóvel por um segundo, o castiçal ainda pesado em suas mãos.
Ysaac jazia no chão do corredor, inconsciente, a lâmina caída a poucos passos de seus dedos.
O silêncio ali parecia errado.
O eco distante das armas e dos gritos chegava abafado pelas paredes de pedra. Ali, porém, o ar era frio e quieto.
Elise respirou fundo.
Então se virou para a porta da sala.
A Sala da Pedra estava aberta.
A luz das tochas refletia nas paredes claras e no piso polido, ampliando o espaço como se fosse um templo esquecido no coração do castelo.
Nenhum guarda.
Nenhum som.
Apenas o pedestal no centro do salão.
E sobre ele, a Pedra.
Elise entrou devagar.
Cada passo ecoava mais alto do que deveria.
O castiçal caiu de sua mão sem que ela percebesse.
O som do metal tocando o chão pareceu alto demais naquele silêncio.
A Pedra estava exatamente como ela se lembrava.
Antiga.
Escura.
E estranhamente simples para algo que carregava tanto poder.
O coração de Elise batia rápido demais.
“Eles vieram pela Pedra.”
“Se a pegarem, Eduardo está perdido.”
“Você precisa tirá‑la de lá.”
As palavras ecoavam como ordens dentro de sua cabeça.
Ela se aproximou.
A poucos passos do pedestal, hesitou.
Por um instante, pensou em Ysaac caído no corredor.
Ele havia aparecido para salvá‑la.
Mas Selina dissera claramente.
“Não confie em ninguém.”
Elise estendeu a mão.
Seus dedos tremiam.
Quando tocaram a Pedra, ela esperou sentir algo — calor, resistência, algum sinal do poder que todos temiam.
Nada aconteceu.
A Pedra apenas cedeu sob seus dedos.
Elise a levantou do pedestal.
O gesto foi quase simples demais.
Por um instante, ela apenas ficou ali, segurando o artefato nas mãos, como se não acreditasse no que havia feito.
Então um som veio do corredor.
Um movimento fraco.
Ysaac.
Elise ergueu os olhos para a porta.
O Fantasma estava começando a se mover.
O medo voltou como um golpe no peito.
Elise segurou a Pedra contra si.
E correu.
Ysaac cambaleou até a sala.
Ao ver o pedestal vazio, caiu de joelhos.
Por um momento apenas respirou, tentando reunir forças.
Então se levantou e partiu novamente pelo corredor.
Entre as colunas do corredor, uma sombra permaneceu imóvel durante todo o tempo. Marcellus observou Elise desaparecer com a Pedra e, só então, deixou seu esconderijo. O plano havia funcionado. Sem pressa, tomou o caminho de volta para levar a notícia a Selina.
A biblioteca estava silenciosa.
Eduardo caminhava lentamente entre as estantes altas, os dedos passando pelas lombadas de couro como se buscasse algo que nem ele sabia exatamente o que era.
Então vieram os sons.
Primeiro, distantes.
Trombetas.
Depois gritos.
Eduardo ergueu a cabeça.
Algo estava errado.
O barulho de passos apressados ecoou no corredor. A porta da biblioteca abriu-se com violência.
Hadrian entrou cambaleando.
O capitão da guarda estava ferido. O sangue escorria de seu ombro e manchava o piso de pedra atrás dele. Mesmo assim, a espada ainda estava firme em sua mão.
— Majestade — disse ele, ofegante. — Precisamos sair. Agora.
Eduardo deu um passo na direção dele.
— O que está acontecendo?
Hadrian não respondeu.
Um estrondo quebrou uma das janelas altas da biblioteca.
Vidro explodiu pelo chão.
Um Elar atravessou a abertura com o impacto de um corpo lançado do céu. As asas se recolheram imediatamente ao tocar o piso.
Outro apareceu logo atrás.
Hadrian já estava em movimento.
Ele avançou antes que os alados pudessem se posicionar. A espada descreveu um arco curto e brutal. O primeiro Elar mal teve tempo de erguer a própria arma antes que o golpe lhe abrisse o peito.
O corpo caiu entre os fragmentos de vidro.
O segundo Elar investiu imediatamente.
As lâminas se chocaram.
Hadrian bloqueou o primeiro golpe e respondeu com um corte rápido que abriu o braço do inimigo. O alado recuou um passo.
Então uma sombra surgiu atrás dele.
Um terceiro Elar.
Hadrian percebeu tarde demais.
A lâmina descreveu um único movimento limpo.
A cabeça do capitão rolou pelo piso da biblioteca.
O corpo permaneceu de pé por um breve instante antes de tombar entre as mesas de leitura.
Eduardo ficou imóvel por um segundo.
A cabeça de Hadrian parou perto da porta.
Os Elar já avançavam.
Eduardo não pensou. Apenas correu.
Saiu da biblioteca quase escorregando no piso coberto de vidro. Atrás dele vieram passos rápidos, o bater curto das asas contra as paredes do corredor.
Um deles gritou algo em sua própria língua.
Eduardo não olhou para trás.
Correu pelo corredor e atravessou o arco que levava à ponte interna do castelo. O vento frio do rio subia pelas pedras e trazia consigo o cheiro de fumaça.
Então uma figura surgiu do outro lado.
Darel.
O alívio foi tão rápido quanto o próprio pensamento.
Eduardo quase riu.
— Sabia que você viria.
Os Elar chegaram um instante depois.
Darel já estava em movimento.
A espada descreveu um arco rápido e o primeiro alado caiu antes mesmo de terminar o salto. O segundo tentou abrir as asas para ganhar espaço, mas a lâmina de Darel entrou sob o braço dele e saiu pelas costas.
O corpo caiu sobre a ponte.
O silêncio voltou por um momento.
Eduardo respirou fundo, finalmente parando.
— Achei que—
A frase morreu no meio.
A lâmina de Darel entrou entre suas costelas.
Eduardo olhou para baixo, confuso, como se não entendesse o que estava vendo.
Depois ergueu os olhos para o irmão.
Darel não disse nada.
Apenas empurrou.
O corpo de Eduardo caiu da ponte e desapareceu na escuridão do rio.
A corrente o levou imediatamente.
Darel permaneceu onde estava, observando o ponto onde o corpo havia desaparecido.
Não havia mais nada ali.