CAPÍTULO 11 — A Queda

Os corredores ainda vibravam com ecos de gritos e metal. Elise avançava sem direção clara, o coração descompassado, a Pedra apertada entre os dedos como se pudesse escapar.

Foi quando viu um rosto conhecido em meio ao caos. Seraphine tentava fugir naquele corredor, coberta de fuligem e sangue seco. Elise não viu apenas uma conselheira. Viu casa.

A voz de Selina ainda ecoava em sua mente — “não confie em ninguém” —, mas outra lembrança se sobrepunha, mais antiga e mais firme. Thalen. Os campos de girassóis, o vento nas colinas, e Seraphine, sempre presente, impondo ordem onde havia dúvida.

A sacerdotisa percebeu a Pedra nas mãos de Elise.

— Criança…

— Eu preciso ajudar Eduardo.

Seraphine a observou por um instante, avaliando não a resposta, mas o estado dela. Então assentiu.

— Então venha comigo. Só um homem pode nos tirar daqui.

— O Fantasma…

— Sim.

Elise hesitou, a culpa ainda recente apertando o peito.

— Ele me salvou… e eu o machuquei.

Seraphine não julgou. Apenas decidiu.

— Então precisamos encontrá-lo.

As duas seguiram juntas por um castelo que já não reconheciam. Corpos espalhados, portas abertas, sombras onde antes havia música. Elise evitava olhar, mas não conseguia afastar a sensação que crescia dentro dela. Culpa.

O ar mudou antes do ataque.

Um Elar surgiu — e caiu antes mesmo de completar o movimento.

Ysaac estava atrás dele.

O Fantasma não parecia um homem ferido, mas alguém que ainda não havia terminado. Seus olhos foram direto para a Pedra, mas ele não esboçou reação.

— Precisamos chegar à biblioteca — disse.

Elise não respondeu de imediato. O olhar passou pela lâmina ainda suja de Ysaac, depois pelo rosto dele. Não havia dúvida ali. Apenas direção.

Seraphine assentiu primeiro.

Elise a seguiu.

Ysaac evitava os corredores principais, guiando-as por passagens estreitas e ocultas, escadas comprimidas na pedra e caminhos esquecidos pelo próprio castelo.

Quando chegaram à biblioteca, o silêncio era errado.

A porta estava aberta. Dentro, destruição: livros espalhados, móveis deslocados e sangue.

Ysaac entrou primeiro e parou, como se o silêncio ali tivesse forma.

Hadrian jazia no chão, decapitado.

Elise levou a mão à boca. Seraphine fechou os olhos por um instante.

Ysaac observou a cena por um breve momento.

— O rei não morreu aqui.

— Vamos.

Eles saíram.

Os caminhos se fecharam novamente ao redor deles, afastando o som distante da batalha até restar apenas o eco dos próprios passos. Ysaac desviou por uma abertura estreita entre duas paredes de pedra.

O espaço era apertado, esculpido diretamente na rocha. Um lugar antigo demais para pertencer ao castelo visível, como se existisse antes dele.

Ysaac avançava sem hesitar, escolhendo desvios e descidas com precisão. Não era exploração. Era memória.

Aqueles caminhos não eram improviso.

Elise percebeu isso na forma como ele se movia — seguro demais para alguém que estivesse apenas tentando fugir.

Brennar.

O nome surgiu claro em sua mente. Não como um palpite, mas como reconhecimento.

Ysaac não aprendera aquilo sozinho.

Quando emergiram, a ponte se abriu diante deles.

O vento carregava cheiro de fumaça e sangue. Poucas marcas. Um confronto rápido.

Ysaac olhou para baixo.

— Foi aqui.

Elise já sabia. Mesmo assim, ver tornou inevitável.

— Não…

A lágrima veio antes da palavra terminar.

Ninguém a consolou.

— Precisamos nos afastar das muralhas — disse Ysaac.

Eles seguiram.

O castelo ardia atrás deles.

O som do combate não cessou de imediato.

Ele mudou de forma — fragmentado, confuso — até que trombetas ecoaram pelo castelo.

Breves. Precisas.

O sinal.

As vozes dos Elar mudaram junto.

O ataque cessou em um único movimento coordenado.

Não houve hesitação.

Apenas execução.

Haviam cumprido seu papel.

A retirada começou imediatamente.

Alguns alçaram voo pelas aberturas do castelo, desaparecendo na noite.

Outros, que estavam entre os convidados, recuaram sem compreender completamente, guiados mais pelo instinto do que por ordens claras.

Eles não ficaram para entender.

Desapareceram pelos corredores e saídas laterais.

Quando os guardas perceberam o que acontecia, os alados já haviam partido.

No salão, o combate deu lugar ao murmúrio.

— Parem.

A voz de Selina atravessou o espaço.

Ela avançou.

O salão ainda carregava o peso do que havia acontecido: corpos, vinho, sangue, móveis quebrados.

Os convidados recuavam, comprimidos contra as paredes.

Os olhos se voltaram para ela.

Ninguém falou.

Um homem tentou se aproximar.

— Majestade… o príncipe—

— Ainda não sabemos.

Ela seguiu.

O som ficou para trás.

Os corredores internos estavam mais contidos.

Quando entrou na sala do pequeno conselho, o silêncio já era outro.

As portas se fecharam.

Marcellus já estava lá.

Lysandro se levantou, tentando recompor-se.

— A Pedra — disse Selina.

Marcellus permaneceu em silêncio.

Cássian entrou em seguida.

— A senhora de Dareth caiu no salão.

Selina absorveu a informação sem reação visível.

— E a Pedra?

Ninguém respondeu.

— Uma garotinha não teria vencido sozinha.

— O Fantasma apareceu — disse Marcellus.

Selina o observou por um instante.

Darel entrou.

— Eduardo?

— Está feito.

O silêncio se instalou.

Selina sustentou o olhar, avaliando.

Então se voltou.

— A guarda precisa de um comandante.

Marcellus compreendeu.

— Dareth não deve transformar isso em retaliação.

Cássian assentiu.

— Recomponha-se.

Lysandro endireitou a postura.

Selina parou diante de Darel.

— O reino precisa de um rei.

Ela se afastou.

— Thalen nos traiu.

— Quero a Pedra.

Ninguém se moveu, mas todos entenderam.