Capítulo 14 — Correnteza

O barco seguia entregue ao curso do rio, sem esforço visível, como se qualquer tentativa de resistência fosse inútil diante da força contínua que o carregava. A água batia contra a madeira em um ritmo constante, profundo, preenchendo o espaço onde antes houvera ruído desordenado.

Felipe mantinha uma das mãos firme no remo, não para alterar o caminho, mas para impedir desvios bruscos. Os movimentos eram curtos e precisos, suficientes apenas para manter o alinhamento com a corrente, sem enfrentá-la.

À frente, Eduardo permanecia estendido, ainda pesado pelo que o rio não havia levado por completo. As roupas encharcadas colavam ao corpo, escurecidas, marcando uma imobilidade que não parecia natural, mas necessária. O peito se movia com dificuldade, intervalos longos separando cada tentativa de respiração. Era o único sinal de que ainda havia algo a preservar.

Felipe observou por um instante, apenas o suficiente para confirmar que o ar ainda passava. Não havia margem para distração maior. O barco os conduzia sem pausa, e qualquer descuido poderia alterar o pouco controle que ainda restava.

A margem se afastava aos poucos, dissolvendo-se em formas indistintas. O castelo, a ponte, tudo o que ficara para trás deixava de ter contorno. Restava apenas o fluxo contínuo e o som grave da água, que não variava, não hesitava, não permitia retorno.

Felipe manteve o olhar à frente, ajustando o remo quando necessário, atento às variações da superfície que indicavam mudanças no leito. Não havia pressa no gesto, mas havia constância.

O mundo havia sido interrompido em algum ponto atrás deles. À frente, ainda não havia forma suficiente para ser chamado de futuro. Entre um e outro, apenas o caminho imposto pela corrente.

O corpo reagiu antes de qualquer sinal claro de consciência. Um movimento mínimo percorreu o peito e se perdeu na irregularidade da respiração.

Felipe percebeu no mesmo instante. Não desviou o curso do barco, apenas corrigiu o remo o suficiente para manter o alinhamento, enquanto a atenção se fixava naquele único ponto que ainda podia falhar.

O ar entrou outra vez. Curto. Insuficiente. Ainda assim, entrou.

Eduardo não abriu os olhos de imediato. As pálpebras tremeram, como se o esforço exigisse mais do que o corpo conseguia oferecer. A cabeça se deslocou um pouco, sem direção definida, retornando ao mesmo ponto como se não houvesse força para sustentar o movimento.

Felipe inclinou-se o mínimo necessário, sem abandonar o controle do barco. A mão encontrou o ombro encharcado, firme o bastante para ancorar, leve o bastante para não impor peso.

— Fica.

A palavra saiu baixa, quase absorvida pelo som contínuo da água.

As pálpebras se abriram por um instante breve. O olhar não encontrou foco; passou por Felipe sem reconhecê-lo, preso a algo que não estava ali.

Tensão. Um vestígio de medo.

— Darel…

O som falhou antes de se formar. A respiração veio quebrada, exigindo uma pausa longa demais.

— Não…

Felipe manteve a mão onde estava.

— Felipe.

Não como explicação. Como referência.

O olhar demorou a se ajustar. Um segundo a mais, talvez. O suficiente.

— Fe…

A palavra não se completou. O corpo cedeu antes disso, como se a tentativa tivesse custado mais do que podia pagar.

Os olhos se fecharam novamente. A respiração continuou. Irregular. Frágil. Mas contínua.

Felipe não se afastou de imediato. Contou em silêncio o intervalo entre uma entrada de ar e outra, até ter certeza de que não havia cessado.

Só então voltou ao remo.

O rio não havia diminuído. Nem esperaria.

Felipe não olhou para trás. A decisão não surgiu como pensamento. Veio como ajuste, tão natural quanto manter o remo alinhado à corrente.

O nome permanecia, não como som, mas como registro.

Darel.

Não havia dúvida no que tinha visto. Nenhuma distorção criada pelo caos, nenhuma leitura apressada. O gesto fora limpo demais para permitir erro.

Felipe manteve o olhar adiante, como se retornar àquela imagem pudesse alterar algo que já não admitia mudança.

O corpo reagia em silêncio. Não havia tremor visível, nem perda de controle. Apenas um respirar constante, sustentando o que ainda precisava ser feito.

Atrás dele, o mundo tinha forma demais. Nome demais. Consequência demais.

À frente, nada exigia interpretação.

Apenas continuidade.

O remo cortou a água em um movimento curto, corrigindo um desvio leve provocado pela corrente. Felipe acompanhou o gesto até o fim, garantindo o alinhamento antes de qualquer outro pensamento se formar.

Não havia espaço para hesitação. Nem para retorno.

O que fora deixado para trás não seria alcançado novamente pelo mesmo caminho.

E ele não pretendia tentar.

O curso do rio se estreitou adiante, comprimindo a passagem entre formações de pedra. A superfície deixava de ser uniforme, marcada por ondulações mais densas que exigiam atenção constante.

Felipe percebeu antes de ver por completo. A mudança vinha no som — mais grave, mais concentrado — como se a água ganhasse peso ao atravessar aquele trecho.

Reposicionou o remo com cuidado, conduzindo o barco para uma linha mais estável, evitando a proximidade das margens onde a corrente quebrava com mais força.

Não era escolha de caminho.

Era manutenção.

À frente, o rio não oferecia pausa nem abrigo. Apenas seguia, impondo direção sem permitir alternativa clara.

Felipe manteve o olhar fixo no que vinha, lendo o movimento da água em busca de qualquer irregularidade que pudesse comprometer o trajeto.

Atrás, Eduardo permanecia imóvel, a respiração ainda irregular, mas contínua o bastante para não exigir nova intervenção.

Isso bastava.

Não havia destino definido.

Apenas a necessidade de continuar.

O barco avançou, levado pela mesma força que havia arrancado tudo deles poucas horas antes.

E, desta vez, Felipe não tentou resistir.