Capítulo 15 — O Peso
A consciência retornou sem linha clara, como se o corpo resistisse ao próprio despertar. Não houve transição suave, apenas a sensação de ter sido puxada de volta a algo que ainda não a recebia por inteiro.
O frio veio primeiro. Não agressivo, mas constante, infiltrado na pele. Em seguida, a rigidez. Cada tentativa de movimento encontrava um limite imediato, como se o corpo ainda carregasse o impacto do que havia acontecido.
Elise manteve os olhos fechados por um instante, não para permanecer ali, mas para adiar o que viria depois. A necessidade de entender, porém, não permitiu demora.
Quando abriu os olhos, a luz apareceu fragmentada, atravessando falhas na cobertura acima. O espaço se revelou aos poucos: paredes antigas, superfícies marcadas pelo tempo, um abrigo que não acolhia. Nada ali sugeria permanência.
Então veio a percepção seguinte.
O peso nas mãos.
Não precisou olhar para saber. Ainda assim, olhou.
A Pedra estava ali.
Não houve surpresa. Apenas reconhecimento, imediato e incômodo, acompanhado por uma tensão que não vinha do ambiente, mas de algo já presente nela.
A respiração encurtou por um momento, reagindo antes da mente acompanhar.
Elise tentou se mover. A dor respondeu, espalhada, lembrando que o corpo não acompanhava o retorno da consciência.
O silêncio ao redor não era ausência.
Havia alguém ali.
E, de algum modo, ela já sabia.
Elise não soltou a Pedra. Os dedos permaneciam fechados ao redor dela, como se o corpo ainda estivesse preso ao instante anterior, incapaz de encerrar aquilo sozinho.
Ela tentou se erguer com cuidado, apoiando-se no chão. O movimento não se completou. A dor respondeu de imediato, obrigando-a a interromper o esforço antes de perder o equilíbrio. O ar saiu rápido demais, e por um instante tudo se reduziu a manter-se estável.
Foi nesse intervalo que percebeu, com clareza, que não estava sozinha.
O olhar subiu devagar até encontrar Seraphine à frente. Imóvel. Observando. Não se aproximou, não ofereceu ajuda, como se qualquer intervenção fosse desnecessária. Não havia hostilidade evidente no olhar dela.
Elise sustentou aquele olhar por um breve momento, como se buscasse ali algo que ainda não conseguia formular. Não encontrou.
Um movimento lateral desviou sua atenção. Ysaac estava de pé, encostado à pedra, como se aquele lugar fosse apenas uma pausa no caminho. Consciente. Presente. Em silêncio.
Isso pesou mais do que qualquer palavra.
Elise desviou o olhar por um instante. A pergunta escapou antes de se organizar:
— O que eu fiz…
Ela não repetiu. Permaneceu onde estava, como se qualquer movimento além daquele ponto pudesse alterar algo que já não admitia mudança.
Seraphine não apressou a resposta. Observou por um instante, avaliando não a pergunta, mas quem a fazia.
— Você foi usada.
A frase não veio como consolo. Não suavizou. Não trouxe alívio.
Elise não desviou o olhar. A resposta encontrou lugar rápido demais, encaixando-se com precisão desconfortável no que já se formava dentro dela.
— Selina fez isso — continuou Seraphine.
O nome caiu com peso próprio, sem necessidade de explicação.
Não houve reação imediata. Nem choque tardio. Nem negação.
Porque fazia sentido.
E isso não mudava o que permanecia.
Elise manteve a Pedra nas mãos. Não a afastou, não a soltou, como se reconhecesse que qualquer tentativa de rejeição seria superficial.
Ela entendia.
E ainda assim, a lembrança não se alterava.
Seraphine não acrescentou mais nada. Não havia necessidade.
Ysaac permaneceu onde estava, em silêncio, como se aquela confirmação não trouxesse novidade.
Isso tornava tudo mais difícil de sustentar.
Elise respirou fundo, mas o ar não trouxe estabilidade.
Porque, mesmo agora, com a verdade colocada diante dela, uma parte permanecia intacta.
E essa parte não pertencia a Selina.
Pertencia a ela.
Elise não respondeu de imediato. A pergunta ainda ecoava, mas já não buscava resposta fora. O que precisava ser entendido estava diante dela, sem espaço para negação.
Ela olhou novamente para a Pedra, agora sem hesitação, como se aceitasse o peso que carregava. Não havia mais surpresa.
Os dedos se ajustaram ao redor dela. Não parecia algo que pudesse simplesmente ser abandonado.
A imagem de Helder chegou sem aviso, atravessando o silêncio da ruína com uma clareza cruel demais para ser afastada.
Elise não viu o pai caído no salão. A lembrança que veio foi diferente.
Ele estava vivo.
Sentado à mesa poucas horas antes, segurando a taça enquanto escutava Brennar reclamar da comida de Heleno pela terceira vez na mesma noite. Noel ria ao lado deles, daquele jeito contido que sempre parecia surgir mais pelos outros do que por ele mesmo, e Helder apenas balançava a cabeça, paciente, como se já conhecesse aquela cena há anos.
Tudo parecia tão normal.
As velas refletiam no dourado das taças. A música atravessava o salão ao longe. Por um instante, Elise chegou a acreditar que finalmente existiria paz suficiente para que as pessoas que amava permanecessem próximas umas das outras sem medo do que viria depois.
Agora Brennar estava morto.
Noel também.
E o pai…
O ar falhou dentro do peito antes que ela percebesse. Elise abaixou a cabeça, apertando a Pedra entre os dedos enquanto tentava conter a sensação que começava a subir devagar, pesada demais para continuar presa.
Ela nem sequer conseguira se despedir.
A garganta de Elise apertou.
Então Eduardo surgiu em sua memória logo depois, tão próximo que quase doeu. O corredor iluminado pelas tochas. O sorriso cansado quando ele disse que o castelo parecia diferente naquele dia. A forma como a presença dele sempre tornava tudo menos pesado.
Os olhos de Elise arderam, mas ela não chorou. Não completamente. A dor permanecia presa em algum lugar fundo demais para sair de uma vez, espalhando-se aos poucos, ocupando espaço dentro dela sem pedir permissão.
Por um momento, a Pedra pareceu insuportável entre suas mãos.
Mesmo assim, Elise não a soltou.
Seraphine observava, sem interferir, como se aguardasse uma decisão que não poderia influenciar.
Ysaac não se moveu. A presença dele permanecia firme, constante.
Elise respirou outra vez, mais controlada, ainda que o desconforto persistisse. O corpo começava a responder, limitado, mas funcional.
Ela tentou se erguer novamente, mais devagar. Desta vez, o movimento não falhou por completo. Instável, mas possível.
Elise manteve a Pedra junto ao corpo, sem voltar o olhar para os outros.
Ela permaneceu de pé por um instante maior do que o necessário. O corpo ainda testava seus limites. A estabilidade era incompleta, porém suficiente.
O espaço ao redor permanecia rígido, silencioso, indiferente ao que havia sido compreendido ali dentro. A ruína não oferecia abrigo real, apenas um intervalo.
Elise deu um passo curto, sentindo o peso se redistribuir. A dor ainda estava presente, mas já não comandava o movimento.
Era possível continuar.
Ela não olhou para trás. Nem para o ponto onde havia despertado, nem para o que ficara antes disso. Não havia retorno.
A Pedra permaneceu com ela, não como decisão consciente, mas como algo já integrado ao que viria.
Seraphine acompanhou o movimento sem interferir. Não havia aprovação, nem oposição. Apenas reconhecimento do que estava sendo decidido.
Ysaac permaneceu por um instante, observando.
— Já ficamos tempo demais.
A frase não carregava urgência exagerada. Apenas constatação.
Então ele se moveu.
O silêncio entre eles não era vazio.
Era acordo.
E, pela primeira vez desde que abrira os olhos, Elise não tentou escapar dele.
Porque agora entendia.
E seguir era o que restava.