Capítulo 16 — Depois da Correnteza

O som do rio ainda estava presente, mas distante o bastante para não dominar o espaço. A corrente seguia seu curso alguns metros adiante, visível apenas em trechos entre a vegetação irregular que acompanhava a margem.

O chão era duro, coberto por terra úmida e raízes expostas. Felipe havia escolhido um ponto mais baixo, protegido por um desnível natural que quebrava a linha de visão a partir da água. Não era abrigo. Era apenas o suficiente.

Eduardo abriu os olhos sem pressa. Não houve sobressalto nem confusão. A consciência veio limpa, acompanhada por uma dor constante que parecia distribuída pelo corpo inteiro, como se cada movimento tivesse sido interrompido antes de terminar. Ele não tentou se levantar. Respirou com cuidado, medindo o próprio limite antes de qualquer decisão. O ar entrava com dificuldade, mas sem falhar.

O céu aparecia fragmentado entre os galhos acima, claro demais para o que ele ainda sentia. A luz não aquecia. Apenas deixava tudo visível.

Um movimento ao lado chamou sua atenção. Felipe estava agachado, concentrado em algo entre as mãos. Não havia pressa nos gestos, mas também não havia descuido. Cada ação parecia calculada, reduzida ao necessário. Ele não olhou de imediato. Sabia que Eduardo havia despertado.

Eduardo moveu a mão alguns centímetros, testando a resposta do próprio corpo. A dor veio, mas não o impediu. Virou o rosto com esforço controlado, até conseguir observar melhor o que Felipe fazia.

Raízes pequenas, ainda cobertas por terra.

Felipe terminou de limpar uma delas com a própria manga, sem preocupação com sujeira ou aparência, e estendeu a mão na direção de Eduardo, oferecendo sem olhar diretamente.

— Vai ter que servir.

Eduardo demorou um instante antes de aceitar. A mão se moveu com cuidado, como se cada centímetro exigisse cálculo. Quando finalmente segurou a raiz, não levou à boca de imediato. Observou o objeto por um breve momento, ainda com traços de terra presos à superfície irregular.

Felipe já havia voltado ao que fazia, limpando outras raízes com movimentos curtos e precisos.

Eduardo levou a raiz à boca e mordeu com esforço. O gosto era áspero, seco, difícil de ignorar. Ainda assim, mastigou devagar, mais por necessidade do que por escolha. Engoliu com dificuldade e puxou ar antes de tentar falar.

— Fogo…

A palavra saiu baixa, quase falhando no final.

Felipe não levantou o olhar.

— Denuncia.

A resposta veio simples, sem explicação adicional.

Eduardo assentiu de leve, como se aquilo confirmasse algo já considerado. Apoiou a cabeça por um instante, recuperando o fôlego antes de continuar.

— Quanto tempo…

A frase não se completou.

Felipe terminou o movimento que fazia antes de responder.

— O suficiente.

Não havia precisão na resposta, nem necessidade dela.

Eduardo ajustou a posição do corpo, buscando um apoio melhor contra o solo irregular. O desconforto permanecia, mas já não dominava cada movimento. Felipe levantou o olhar por um instante, avaliando rapidamente a condição dele.

Eduardo voltou a mastigar um pequeno pedaço, organizando o que precisava dizer antes de gastar energia com palavras. Quando finalmente falou, não olhou para Felipe.

— Brennar…

A palavra saiu mais firme do que as anteriores, ainda que baixa.

Houve uma pausa curta, imposta pelo corpo.

— E Noel?

Felipe interrompeu o gesto apenas o tempo necessário. Manteve o olhar em um ponto à frente.

— Não.

A palavra saiu limpa, sem variação de tom. Em seguida, retomou o movimento, como se a ação fosse a única forma de manter o controle sobre o que não podia mudar.

Eduardo absorveu a resposta sem reação visível. Fechou os olhos por um breve instante, não para escapar, mas para acomodar aquilo antes de seguir. Quando voltou a abri-los, não havia mais espaço para dúvida. Felipe continuava ali. E isso, naquele momento, era o que restava.

Eduardo ergueu levemente o rosto, ainda sem encarar Felipe diretamente.

— Elise…

A palavra saiu baixa, sem força, mas clara o bastante.

— Você a viu?

Felipe limpou as mãos na roupa antes de responder.

— Vi.

Eduardo assentiu, absorvendo a resposta com atenção contida.

— Ela saiu?

— Não sei.

A incerteza permaneceu por alguns instantes. Eduardo não insistiu. Não havia mais o que extrair dali.

O nome veio em seguida, sem preparação.

— Darel.

Felipe não reagiu. Manteve o olhar fixo à frente, como se a palavra não exigisse resposta.

Eduardo franziu levemente a testa. Ele lembrava de tudo, mas ainda não conseguia dar sentido ao que havia acontecido.

— Não entendo.

A frase saiu mais lenta, sustentada por esforço, não por dúvida.

Felipe soltou o ar de forma contida antes de falar.

— Não pensa nisso agora.

Não era conselho. Era limite.

A margem ao redor permanecia silenciosa, quebrada apenas pelo som distante da água, constante o bastante para lembrar que não estavam fora de risco. Eduardo apoiou a mão no chão e testou o próprio peso com cuidado. A dor veio, mas já não dominava. Era possível sustentar o esforço, ainda que de forma limitada.

Com esforço controlado, conseguiu se erguer parcialmente, apoiando-se primeiro no cotovelo, depois no joelho. A respiração encurtou por um momento, mas se estabilizou antes de falhar. Ele permaneceu assim por um segundo a mais, garantindo que não perderia o equilíbrio.

Felipe reduziu a distância apenas o necessário, não para conduzir, mas para evitar uma queda que custaria mais do que poderiam pagar naquele momento.

— Dá para andar?

A pergunta veio baixa, direta, sem cobrança.

Eduardo ajustou o próprio centro antes de responder.

— Dá.

A resposta saiu curta, mais próxima de constatação do que de confiança.

Antes de indicar o caminho, Felipe desviou por um instante. O olhar passou pelo rio, fixando-se no barco parcialmente preso à margem.

Ele caminhou até ele sem dizer nada, entrando na água o suficiente para alcançar a lateral. A corrente ainda puxava, leve, mas constante.

O movimento não foi rápido. Houve resistência. A madeira raspou contra a margem, pesada demais para o estado em que estavam.

Felipe ajustou o apoio dos pés, puxando com força controlada até deslocar o barco alguns centímetros. Depois mais. O suficiente para tirá-lo da linha direta da água.

Ele não tentou esconder completamente. Apenas o empurrou para dentro da vegetação mais densa, onde deixava de ser visível à distância.

Parou por um instante, avaliando o resultado. Não era perfeito. Era o bastante.

Só então voltou.

Felipe assentiu uma única vez e recolheu o que havia no chão, guardando sem cerimônia. Nada ali era para permanecer. Lançou um último olhar ao entorno, avaliando caminhos, distância e exposição, antes de indicar com um leve movimento de cabeça a direção que pretendia seguir.

— Por aqui.

Não explicou o motivo. Não era necessário.

Eduardo deu o primeiro passo com cautela, sentindo o peso do corpo se reorganizar a cada movimento. Não havia firmeza plena, mas havia progresso.

Felipe iniciou o deslocamento logo em seguida, ajustando o ritmo ao de Eduardo sem precisar dizer. Não olhava para trás com frequência, mas também não relaxava. Cada avanço parecia calculado para mantê-los fora de alcance do que ainda podia estar procurando por eles.

O rio ficou para trás aos poucos, encoberto pela vegetação irregular. O terreno subia de forma leve, exigindo mais atenção do que força. Não era um caminho seguro, mas era um caminho possível.

E seguiram.