CAPÍTULO 17 – Sem Retorno

O silêncio não era vazio.

Elise percebeu antes de conseguir nomear. Havia algo no ar que não pertencia ao lugar — não um som, nem um cheiro, mas uma ausência, como se o mundo tivesse falhado por um instante e seguido adiante sem corrigir o erro. Ainda assim, eles avançavam.

O terreno mudara desde as ruínas. A pedra irregular cedia lugar a uma trilha estreita, cortando a vegetação baixa. Galhos secos prendiam-se aos tornozelos, folhas ásperas riscavam o tecido, e o chão afundava em pontos inesperados, ocultando vazios sob a superfície.

Elise caminhava alguns passos atrás de Ysaac. Era a cadência dele que puxava o grupo, firme, constante, sem vacilo visível. Cada passo parecia já decidido antes de tocar o chão.

Seraphine seguia ao lado, ligeiramente atrás, mantendo o ritmo com facilidade. O manto claro já não contrastava com o ambiente; carregava poeira, marcas nas bordas, dobras que guardavam o caminho percorrido.

A Pedra repousava junto ao corpo de Elise, escondida por uma faixa improvisada com um pedaço do vestido. Elise a tocava instintivamente, como que para garantir que não saíra do lugar.

O vento atravessava as folhas sem regularidade. O som mudava sem padrão, como se algo interferisse no próprio fluxo do ar.

Ysaac reduziu o ritmo por um instante breve. Não chegou a parar; apenas ajustou o passo.

O corpo dele havia respondido antes de qualquer sinal claro.

As vozes surgiram antes das formas.

Baixas, contidas, atravessando a vegetação sem pressa. Não havia desordem.

Ysaac ergueu a mão sem olhar para trás. O gesto, mínimo, interrompeu o avanço.

Elise sentiu a reação antes do pensamento. Os dedos apertaram a Pedra por cima do tecido enquanto as vozes se tornavam mais nítidas.

— Avancem até a margem — disse uma voz, firme, sem elevar o tom. — Eles não podem ter ido longe.

A resposta veio em seguida.

— Se ainda estiverem na área, encontramos antes do anoitecer.

Não havia dúvida.

— Se os virem, sinalizem. Não tentem lutar com o Fantasma.

Seraphine inclinou levemente a cabeça, como se escutasse além das palavras. O olhar percorreu o entorno com calma que não combinava com a situação.

Ysaac desviou da trilha principal sem hesitar.

Elas o seguiram.

A vegetação se fechava adiante, dificultando o avanço e limitando a visão. Cada passo exigia cuidado para não quebrar galhos secos ou ceder em terreno instável.

As vozes se aproximaram.

Mais claras agora.

Próximas demais.

Elise conteve a respiração por instinto.

Eles estavam sendo caçados.

E não havia nada de improvisado naquilo.

O vento retomou o caminho entre as folhas, os sons reapareceram, e a pressão invisível que os cercava cedeu aos poucos.

Eles não pararam.

Ysaac manteve o movimento por alguns passos, afastando o grupo do ponto de cruzamento. Só quando a distância pareceu suficiente reduziu o ritmo.

Elise soltou o ar sem perceber que o havia prendido.

O corpo permanecia tenso, pronto para um ataque que não veio. Os dedos afrouxaram sobre o tecido preso junto ao corpo, mas não se afastaram.

O silêncio agora carregava cálculo.

Seraphine manteve o olhar à frente, como se acompanhasse algo além do alcance dos outros. Não havia esforço visível, apenas atenção contínua.

Ysaac parou por fim.

O gesto foi simples. Ele cessou o movimento e voltou o olhar para trás por um instante, medindo a distância.

— Eles continuam procurando — disse, baixo.

Não era suposição.

Elise assentiu.

Não havia alívio, apenas clareza.

— Não podemos parar — continuou Ysaac.

Ninguém discordou.

Seraphine falou então, pela primeira vez desde que haviam deixado a área mais próxima da guarda.

— Eles não vão desistir.

A frase veio sem urgência, direta.

Elise desviou o olhar por um instante, como se aquilo encontrasse algo já presente dentro dela.

— Então não voltamos — falou Ysaac, retomando o passo.

Eles voltaram a andar.