CAPÍTULO 2 — O Segredo do Sangue

O salão do Conselho cheirava a incenso velho, cera derretida e luto recente. As colunas altas do Corredor Branco se erguiam como sentinelas silenciosas, enquanto o grande círculo de cadeiras de madeira escura aguardava seus donos. No centro, a mesa redonda de pedra polida refletia o brilho vacilante das tochas, como se também tivesse passado a noite em claro.

Um a um, os membros do Conselho foram tomando seus lugares, envoltos em mantos pesados, joias discretas e olhos cansados.

Lysandro da Moeda chegou primeiro. Sempre chegava. Era baixo, magro, com dedos longos e nervosos que cheiravam a metal e tinta de registro. Suas roupas nunca estavam fora do lugar, mas seus cabelos insistiam em uma rebeldia discreta, como se um pedaço de sua mente estivesse sempre fazendo contas enquanto o resto da cabeça tentava fingir calma. Era o Mestre da Moeda, o homem que sabia quanto custava cada pedra do Corredor Branco e cada soldado ao longo das muralhas de Heleno.

Logo atrás, deslizando quase sem som, veio Seraphine de Thalen, a Alta-Sacerdotisa. O manto branco e dourado cobria-lhe todo o corpo, exceto as mãos finas e o rosto marcado por rugas suaves, daquelas que não nascem apenas da idade, mas de quem viu gente demais prometer fidelidade na véspera e ceder às próprias falhas. Seraphine representava não apenas Thalen, o reino das colinas e dos ventos frios, mas também a guarda espiritual de Heleno.

Hadrian das Lâminas ocupava a cadeira militar no Conselho não apenas por antiguidade, mas por aceitação. A Guarda Real respondia a ele, às muralhas, aos protocolos e à ordem visível do reino.

Ysaac, embora nomeado por Augusto como comandante da guarda pessoal do rei, recusara a cadeira oferecida na mesa redonda. Dizia que cadeiras prendiam homens ao chão, enquanto portas, sombras e corredores exigiam movimento.

Hadrian chamava aquilo de indisciplina disfarçada de humildade. Ysaac chamava o Conselho de um lugar onde espadas enferrujavam antes de serem necessárias.

Ainda assim, quando o perigo respirava perto demais do trono, era entre os dois que Heleno depositava sua sobrevivência — um defendendo o reino, o outro defendendo o homem que ocupava o trono.

Do outro lado da mesa, com um sorriso ensaiado demais, sentou-se Cassian dos Ventos, Emissário dos Povos Alados. A pele mais escura, os cabelos presos em tranças finas adornadas com pequenas penas negras, e um broche em formato de asa no peito denunciavam a origem além das montanhas. Ele falava em nome dos reinos suspensos, das cidades que pendiam de penhascos e das torres onde os nascidos com asas aprendiam cedo demais a lidar com alturas e quedas.

Por fim, com passos arrastados, chegou Mira de Dareth, Senhora das Dunas. O véu translúcido cobria parte do rosto, mas não escondia o olhar afiado como lâmina de vidro. Os desertos de Dareth a tinham moldado: pouca água, poucas palavras, nenhum perdão para os fracos. Trazia no pescoço um colar de pequenas pedras amareladas, cada uma vinda de um oásis que ela dominava com mãos firmes.

A cadeira mais alta, reservada ao regente, permanecia vazia.

Lysandro pigarreou, como quem pede licença para o primeiro golpe na superfície do silêncio.

— A cerimônia fúnebre foi... bela — disse ele, escolhendo a palavra com cuidado. — Augusto foi honrado como merecia.

Seraphine inclinou levemente a cabeça.

— O cortejo silencioso, as tochas, o percurso pelo Corredor Branco... Foi digno — concordou. — Uma despedida à altura.

Hadrian cruzou os braços, o couro das luvas rangendo.

— Digno não traz ninguém de volta — murmurou. — Mas sim, foi um funeral que faria qualquer inimigo pensar duas vezes antes de subestimar a memória de Augusto.

Cassian suspirou, fechando por um momento os olhos.

— Entre os Povos Alados, dizemos que a morte é só outra fronteira. Augusto cruzou a dele cercado por respeito. Poucos têm esse privilégio.

Mira ajeitou o véu.

— Entre as dunas, dizemos que areia cobre tudo, cedo ou tarde. — Seus olhos fitaram o centro da mesa. — Mas admito: foi belo. Até o silêncio parecia bem ensaiado.

As portas se abriram mais uma vez.

Selina entrou.

Vestia luto impecável: tecido negro que abraçava o corpo no ponto exato entre recato e provocação, mangas longas, decote discreto, mas não inexistente. O rosto, pálido, parecia esculpido para o momento: olhos levemente vermelhos, lábios comprimidos, uma dignidade dolorida. A perfeição do sofrimento.

Todos se levantaram, como um reflexo.

— Majestade — disse Seraphine, em tom reverente.

Selina fez um gesto delicado com a mão, quase tímido.

— Por favor — pediu, com a voz suave, levemente rouca. — Não precisam... Entre nós, não hoje.

Ela caminhou até a cadeira à cabeceira da mesa, a de Augusto, e por um breve instante repousou a mão sobre o encosto vazio. Depois, sentou-se com calma, a coluna ereta.

— Em nome do Conselho — começou Lysandro — oferecemos nossas condolências pela partida de Augusto. Ele foi, e sempre será, lembrado como um rei justo.

— E teimoso — acrescentou Mira. — Justo, mas teimoso.

Um sorriso quase invisível tocou o canto dos lábios de Selina.

— Ele era tudo isso — disse. — Justo, teimoso... e seu. Agradeço por terem honrado sua memória. A cerimônia foi... perfeita.

Seraphine assentiu.

— Nós a planejamos pensando nele e em você. O silêncio, o respeito do povo, o percurso pelo Corredor Branco.

— O povo precisa ver o luto para acreditar na perda — comentou Cassian. — E precisa ver a força de quem fica para acreditar no futuro.

Lysandro pigarreou.

— Falando em futuro... Falta alguém nesta mesa.

Selina baixou os olhos por um instante.

— Eduardo ainda está em recolhimento — explicou. — A morte do pai o atingiu de forma particular. Sempre foi um rapaz sensível. E devoto aos livros.

Hadrian franziu o cenho.

— Sensível ou não, ele é o herdeiro. O próximo rei não pode faltar à primeira reunião do Conselho após a morte do antecessor.

— O Comandante tem razão — disse Mira. — No deserto, o sucessor monta o cavalo do pai antes que o corpo esfrie. Qualquer hesitação é vista como fraqueza.

Selina ergueu o olhar.

— Em Heleno, o sucessor também aprenderá a erguer a cabeça. Eu mesma me certificarei disso. Mas prefiro que ele chegue inteiro ao trono, não quebrado. Deem-lhe um dia. O reino não cairá em vinte e quatro horas.

Seraphine interveio.

— O luto também é um rito. Não se exige pressa da alma ferida.

Hadrian cedeu com um aceno curto.

Lysandro puxou um pergaminho.

— Temos a cerimônia de casamento para discutir. — Ele ajeitou seus papéis. — O casamento de Eduardo com Elise de Thalen acontecerá no Corredor Branco, conforme desejara Augusto. Os acordos com Thalen se fortalecerão depois disso.

— E a coroação o seguirá imediatamente — completou Cassian. — União e continuidade. Uma mensagem poderosa.

— O povo precisa ver mais do que tristeza — disse Mira. — Precisa de espetáculo. Nada cura mais rápido do que a sensação de que tudo continua no lugar.

Selina inclinou a cabeça.

— Augusto queria que o casamento de Eduardo e Elise fosse o início de uma nova era. Não vou contrariar sua vontade. A cerimônia será como planejada. Talvez com pequenos ajustes.

— Que tipo de ajustes? — perguntou Hadrian.

— Flores. Música. Algumas mudanças na movimentação da guarda. Detalhes.

Lysandro continuou:

— Precisamos definir a disposição do cortejo, a participação das famílias nobres, a presença dos Povos Alados, dos emissários de Dareth, da Guarda Real...

Cassian sorriu.

— Os nossos virão. Adoram cerimônias. Especialmente quando há vinho.

— E areia — murmurou Mira. — Traz sorte.

Seraphine suspirou.

— Sem areia. Sem penas. Sem rituais novos. Mas podemos garantir que a cerimônia una os símbolos de Augusto e de Eduardo. Isso acalma temores.

— Façam o que for necessário — disse Selina. — Contanto que, ao final, o povo veja um rei.

— E uma rainha — completou Cassian.

Selina apenas sorriu.

Pouco depois, o Conselho se dispersou.

Selina permaneceu sentada por alguns instantes, observando a cadeira vazia ao lado. A cadeira de Augusto. Seus dedos afagaram o braço de madeira, como quem se despede de uma lembrança útil.

Então, levantou-se.

Sem lágrimas. Sem tremor.

Apenas um leve sorriso, que não seria adequado para uma viúva em público.

Marcellus esperava em uma antecâmara afastada, longe dos olhos e ouvidos que importavam. O irmão bastardo de Augusto usava roupas escuras, sem brasões, sem ostentação. Nada nele gritava “nobreza”; era preciso olhar mais fundo, mais fundo do que a maioria tinha coragem, para encontrar o perigo.

Encostado na parede, braços cruzados, ele parecia relaxado demais para alguém que havia enterrado o próprio irmão no dia anterior. Exceto pelo olhar. Os olhos não relaxavam. Nunca.

Selina entrou sem bater. A porta se fechou às suas costas com um clique suave.

Os dois se encararam em silêncio por um tempo que teria incomodado qualquer pessoa que não estivesse acostumada a usar o silêncio como arma.

— O Conselho está satisfeito? — perguntou Marcellus, por fim.

Selina tirou as luvas com calma, como quem desmonta uma encenação, dedo por dedo.

— O Conselho está iludido — corrigiu. — O que, no momento, é quase a mesma coisa.

Ela se aproximou dele, passos lentos, felinos.

— Falaram do funeral? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Foi bonito. Quase me convenceu.

— Falaram da cerimônia, choraram Augusto, ofereceram condolências... — Ela revirou levemente os olhos. — E reclamaram da ausência de Eduardo.

Marcellus riu, um som baixo, seco.

— Deixe que reclamem. O menino estava na biblioteca, não em uma cama qualquer. Para um futuro rei, isso ainda rende algum respeito.

Selina parou a poucos passos dele.

— Para um futuro rei fraco, você quer dizer.

O brilho nos olhos de Marcellus endureceu.

— Fraco, não. Maleável. — Ele descruzou os braços. — É diferente.

— Eduardo não foi feito para o trono — retrucou Selina, sem hesitação. — Ele foi feito para livros, para dúvidas, para hesitar na hora errada. Você sabe disso. Augusto sabia disso. Eles apenas fingiam o contrário.

Marcellus inclinou a cabeça.

— E Darel? — perguntou. — O que dizem dele?

Um sorriso real, vivo, curvou os lábios de Selina.

— Darel é amado. Pelos soldados, pelas donzelas, pelos servos, pelo povo. — Ela se aproximou ainda mais, a voz se tornando quase um sussurro. — Pela mãe.

Marcellus a olhou de cima a baixo, o rosto se suavizando por um momento raro.

— Seu filho.

— Nosso filho — corrigiu ela, com firmeza. — O segredo mais bem guardado deste reino.

O ar pareceu ficar mais denso entre eles. Ali estava o coração do plano. O segredo do sangue. O fio invisível que ligava a morte de Augusto, a fragilidade de Eduardo e a ascensão desejada de Darel.

— Augusto se foi — continuou Selina, a voz tão fria quanto uma lâmina polida. — O primeiro obstáculo foi removido. Agora temos um príncipe fraco no caminho e um príncipe forte escondido atrás de um sobrenome que não lhe pertence.

— Forte demais, talvez — murmurou Marcellus. — Darel gosta demais de risos, de copos cheios, de camas quentes. Coisas que distraem.

— Distraem — concordou Selina. — Mas ele sabe como ser amado. E gente que ama... segue. E morre, se for preciso.

Marcellus passou a língua pelos dentes, pensativo.

— E o que você planeja, rainha de luto perfeito?

— Não me chame assim quando estamos sozinhos — pediu ela, mas sem real censura. — Primeiro, deixamos que chegue o dia do casamento, todos os ritos. O povo precisa de uma figura para se apegar. Uma figura que pareça segura, mesmo que não seja.

— E então? — Marcellus apertou os olhos. — Um acidente? Um veneno mais discreto do que o que usamos com Augusto?

Selina fez um gesto vago.

— Talvez. Ainda não decidi a forma. O que importa é o resultado: um príncipe jovem, vulnerável, cercado de pressões que não sabe suportar. — Ela caminhou até a pequena janela estreita, de onde se via um pedaço do céu de Heleno. — O Conselho já o considera sensível demais. O povo o verá como indeciso. Basta um erro bem colocado. Um fracasso público. Um escândalo.

— E Darel aparece como a solução — completou Marcellus, entendendo. — O irmão forte, o herói relutante empurrado pelo destino.

— Exato. — Selina sorriu para o vidro. — Quando o sangue começar a ferver nas ruas, quando alguém precisar pôr ordem no caos, o nome dele será o primeiro nas bocas. E ninguém se importará com quem lhe deu esse lugar. Nem com quem caiu para isso acontecer.

Marcellus se aproximou por trás dela, as mãos deslizando pela curva dos ombros, não em carinho, mas em reconhecimento de um aliado de igual veneno.

— E o segredo do sangue? — murmurou, perto de sua orelha. — Você confia que ninguém descobrirá que Darel é meu filho?

— Confio na ganância das pessoas — respondeu ela, sem se mover. — Quando o ouro e o poder estiverem ao alcance, ninguém vai desperdiçar tempo com genealogias. Vão querer estar perto do sol, mesmo que queimem. E, se alguém descobrir... — Ela inclinou a cabeça para trás, encostando-a no peito dele. — Nós decidimos quem vive para contar. E quem vira história mal contada.

Marcellus riu, baixo.

— Mas ainda temo um problema que você evita mencionar. Darel. Ele quer ser Comandante da Guarda pessoal do rei. E ele ama o irmão. Nunca trairá Eduardo.

— Não seja tolo... Darel não precisa saber; precisa obedecer. E, quando o povo clamar, ele obedecerá. E governará. E o seu sangue, querido, terá continuidade. Não o de Augusto — o seu, meu amado. Você devia ser rei no lugar dele. Darel merece ser rei no lugar de Eduardo: um rei forte, verdadeiramente amado. Um rei capaz de trazer a glória que nos é devida. — Gosto de quando você fala assim.

— É por isso que ainda está vivo — devolveu Selina, tranquila.

Eduardo deixou a biblioteca com os olhos ardendo e os dedos manchados de tinta. Passara horas mergulhado nos relatos dos antigos reis de Heleno: Fernando, o Ousado; Leonardo, o Pacificador; Rômulo, o Sábio. Os títulos oficiais soavam mais limpos do que as histórias que os sustentavam. Homens que pareciam feitos de uma mistura improvável de coragem e teimosia, de decisões cruéis e noites insones.

Ele se sentia pequeno diante deles. Pequeno demais.

O corredor se estendia à sua frente, longo, branco, quase vazio. As tochas nas paredes lançavam sombras que dançavam conforme ele passava, mais interessado nas próprias dúvidas do que na beleza arquitetônica que o cercava.

— Está fugindo dos fantasmas ou estudando para se tornar um? — perguntou uma voz bem-humorada às suas costas.

Eduardo se virou.

Darel vinha caminhando em sua direção, sem pressa, com o mesmo andar relaxado de sempre, como se o mundo inteiro fosse apenas um cenário no qual ele escolhia o ritmo. Os cabelos castanhos caíam um pouco sobre a testa, os olhos claros brilhavam com aquele tipo de luz que fazia criadas tropeçarem com bandejas nas mãos. Trazia a espada afivelada à cintura, mas o jeito era de quem procura uma boa taça.

— Eu... — Eduardo hesitou, depois sorriu de leve. — Acho que estou tentando entender como alguém dorme depois de decidir o destino de um reino inteiro.

Darel se aproximou, batendo de leve com o ombro no dele.

— Segredo simples: não dorme. Bebe. — Ele fez um gesto vago. — Ou encontra outra coisa para ocupar a mente.

— Outra coisa — repetiu Eduardo, erguendo uma sobrancelha. — Imagino exatamente o tipo de “coisa” que você está sugerindo.

— Não seja injusto — respondeu Darel, fingindo indignação. — Às vezes é vinho. Às vezes é jogo de cartas. Às vezes é uma conversa inteligente. E, em raros casos... — Ele inclinou a cabeça, como quem compartilha um segredo. — Uma donzela apaixonada.

Eduardo riu, a tensão no peito afrouxando um pouco.

— Em qual dessas categorias se encaixa a filha do ferreiro? — perguntou, maliciosamente.

Darel ergueu as mãos.

— Boatos. — A expressão dele, porém, não ajudava em nada a negar.

— E a viúva da rua das Oliveiras?

— Gratidão. — Darel tentou manter o tom sério. — Eu a ajudei a carregar um cesto. Ela quis retribuir. Eu seria rude em recusar.

— Gentileza sua — comentou Eduardo, segurando o riso.

— Eu sou um homem generoso. — Darel inclinou-se um pouco para a frente. — Você devia tentar. A generosidade. Funciona.

Eduardo balançou a cabeça.

— Acho que o Conselho prefere que eu seja generoso com decretos e alianças. E talvez com impostos, se Lysandro estiver de bom humor.

— O Conselho quer um rei que pareça saber o que faz — corrigiu Darel. — E isso é mais teatro do que verdade.

A admiração de Eduardo era quase palpável. Sempre fora.

Enquanto Darel falava, ele o observava: a forma como os ombros pareciam feitos para carregar qualquer peso sem se curvar, como o sorriso nascia rápido, sincero, como se ele fosse incapaz de levar o próprio sofrimento a sério. Darel parecia pertencer ao mundo de uma forma que Eduardo nunca sentira que pertencia.

— Ouvi dizer que você não foi à reunião do Conselho — comentou o irmão, depois de um tempo.

Eduardo desviou o olhar.

— Não consegui — admitiu. — Entrei na sala, vi a cadeira vazia do pai... Parecia que eu estava ocupando um lugar que não era meu. Fui para a biblioteca.

— A cadeira é sua — disse Darel, com firmeza inesperada. — Foi para isso que Augusto te criou. Você é o herdeiro legítimo do trono. E é digno de ocupa-lo.

— E você era o filho que ele gostava de mostrar aos outros — retrucou Eduardo, sem amargura, apenas constatando. — O que montava melhor, lutava melhor, falava melhor com os embaixadores, fazia todos rirem na mesa.

Darel deu de ombros.

— Cada um brilha em um lugar. Eu brilho nas mesas de banquete e no pátio dos soldados. Você brilha nas páginas de livros. Augusto precisava dos dois tipos de gente. — Ele pousou uma mão no ombro do irmão, apertando de leve. — Agora o reino precisa de um rei que conheça os erros dos anteriores. E, lamento informar, mas esse homem definitivamente é você.

Eduardo tentou rir, mas o som saiu meio quebrado.

— Eu não me sinto pronto.

— Ninguém se sente — respondeu Darel. — A diferença é que alguns aprendem a fingir. E os que têm sorte... — Ele sorriu de novo. — Têm alguém ao lado para lembrá-los disso. Você me tem.

Eduardo respirou fundo.

— E se eu falhar? Se eu tomar a decisão errada? Se eu colocar tudo a perder?

— Então eu estarei lá para te xingar, te levantar e te empurrar de volta — disse Darel, sem hesitar. — E Ysaac estará lá para cortar a garganta de quem tentar se aproveitar. E Selina estará lá para... bem, para fazer o que ela faz.

Eduardo franziu o cenho.

— Você fala como se fosse fácil.

— Não é fácil — respondeu Darel. — É necessário.

Os dois caminharam juntos pelo corredor, lado a lado, como faziam quando eram crianças, antes que títulos e coroas se tornassem assunto de conversa.

— Elise estará no casamento? — perguntou Darel, mudando de assunto com a sutileza de um cavalo atravessando uma poça.

Eduardo corou levemente.

— Claro que estará — respondeu. — É o casamento dela também, suponho.

— Dizem que as donzelas de Thalen são... — Darel girou a mão, tentando achar a palavra. — Resilientes.

— Dizem? — Eduardo ergueu uma sobrancelha. — Quantas donzelas de Thalen você já conheceu pessoalmente para confirmar isso?

— Um cavaleiro não revela todas as suas batalhas — devolveu Darel, com o sorriso de sempre. — Mas posso te ensinar o básico. Começando por não ficar vermelho toda vez que alguém menciona a palavra “casamento”.

— Eu não fico vermelho...

— Está ficando agora.

Eduardo tentou esconder o rosto, mas apenas fez Darel rir ainda mais.

Nesse momento, Ysaac surgiu no final do corredor, silencioso como uma sombra que decide se materializar apenas para lembrar aos vivos que não estão sozinhos. A pele negra, marcada por anos de treino e guerra, absorvia a luz das tochas em um brilho discreto, quase intimidante. As tranças densas caíam-lhe sobre os ombros largos, presas parcialmente para manter o rosto livre, revelando olhos atentos demais para alguém que fingia apenas passar. O corpo vigoroso, firme como ferro aquecido, movia-se com uma precisão que desafiava a idade que ele carregava. Era presença, era aviso, era Fantasma — o tipo de guardião que não precisava erguer a voz para dominar o espaço.

— Altezas — cumprimentou, com uma leve inclinação de cabeça. — O Conselho foi encerrado. A rainha deseja falar com o príncipe assim que possível.

Eduardo endireitou a postura, tentando parecer um pouco mais com os homens cujas histórias acabara de ler.

— Comigo?

— Contigo — confirmou Ysaac. — Sobre o casamento e a coroação, imagino.

Darel bateu de leve nas costas do irmão.

— Viu? Nem precisou ir à reunião. A reunião veio até você.

— Não ajuda — murmurou Eduardo.

— Estou ajudando — insistiu Darel. — Vou caminhar com você até a porta. E depois encontrar alguma forma muito irresponsável de brindar ao fato de que ainda não estragamos tudo.

— Ainda — repetiu Eduardo, rindo.

Foram os três pelo corredor: o herdeiro inseguro, o irmão admirado e o protetor silencioso que observava o mundo como um tabuleiro em constante movimento.

Por alguns instantes, pareciam apenas jovens caminhando, rindo de boatos, de amores e de medos que ainda não tinham nome. A conversa descambou para anedotas de corredores, de servas que se derretiam com um sorriso de Darel, de cartas anônimas deixadas em travesseiros, de promessas sussurradas em cantos escuros.

Eduardo ria, genuinamente, embora com um pouco de incredulidade.

— Um dia, isso vai te colocar em apuros — advertiu.

— Um dia, isso vai me colocar numa canção — retrucou Darel. — E você sabe que eu sempre preferi canções a sermões.

Ysaac apenas observava. Guardava não só o corpo dos príncipes, mas também os detalhes. O jeito como Eduardo seguia um passo atrás de Darel sem perceber. O jeito como Darel sempre fazia o mundo parecer menos pesado. O jeito como o Corredor Branco parecia estreitar quando assuntos de poder eram sussurrados nas sombras.

Na antecâmara, o ar estava mais quente.

Marcellus e Selina não estavam mais a distância calculada de conspiradores. A proximidade entre os dois parecia antiga, afiada, confortável como a lâmina favorita de um assassino.

Ele a segurava pela cintura, e ela apoiava as mãos no peito dele, sentindo o ritmo calmo do coração de quem não se perturba com a morte recente de um rei.

— Você parecia convincente — murmurou Marcellus, os lábios perigosamente perto do pescoço de Selina. — Quase acreditei na sua dor.

— Eu choro quando preciso — respondeu ela, inclinando a cabeça para lhe dar mais espaço. — E paro quando é útil.

Os dedos dele subiram pela linha de suas costas, encontrando os fechos do vestido com a familiaridade de quem já aprendera o caminho muitas vezes.

— Foi um veneno limpo — comentou, quase distraído. — Augusto dormiu... e não acordou. Sem espasmos, sem suor frio, sem gemidos. Nunca gostei de mortes barulhentas.

— Eu sei — disse ela, a voz mais baixa. — Por isso pedi a você.

Marcellus a puxou ainda mais para perto.

— Ele desconfiou?

— Não de mim. — Um sorriso lento se desenhou nos lábios de Selina. — Augusto sempre acreditou que eu amaria o trono menos do que amava a cama dele.

— E ele estava errado — murmurou Marcellus, roçando a boca na pele dela, perto da clavícula. — Você ama ambos na mesma medida.

— Às vezes, o trono mais.

O vestido começou a ceder sob as mãos de Marcellus, tecido deslizando pela pele como um segredo que se despe. Selina não recuou. Pelo contrário, aproximou-se, envolvendo o pescoço dele com os braços, como serpentes gêmeas que se reconhecem no movimento uma da outra.

— Estamos comemorando cedo demais? — perguntou ele, em tom de provocação. — O herdeiro ainda está vivo. O Conselho ainda respira. O povo ainda canta o nome de Augusto.

— Cedo? — Selina mordeu de leve o lábio inferior dele, um gesto rápido, perigoso. — Eu passei anos assistindo Augusto respirar. Chamaria isso de atraso.

O riso de Marcellus dissolveu-se num suspiro quando os lábios dela encontraram os seus por inteiro, num beijo que tinha mais de posse do que de carinho. Não havia doçura ali. Havia conquista, desafio, um jogo antigo em que ambos sabiam exatamente o que estavam fazendo.

Ela o empurrou levemente contra a parede, invertendo posições, uma rainha sem coroa, mas com o controle absoluto da cena.

— Você fala demais — sussurrou, entre um beijo e outro. — E beija menos do que deveria.

— Ordem facilmente corrigida — murmurou ele, a voz rouca.

As mãos de Marcellus exploraram o corpo dela com a familiaridade de territórios já tomados, mas ainda cobiçados. O tecido do vestido escorregou mais, revelando pele suficiente para incendiar qualquer homem que não soubesse controlar os próprios impulsos. Marcellus não era um desses homens. Ele escolhia o ritmo. Ela escolhia a direção.

Os dois se moviam como serpentes enroladas, testando limites, apertando, soltando, numa dança que namorava o vulgar, mas se mantinha vestida demais para ser acusada de nudez completa. Havia suspiros abafados, unhas que arranhavam levemente, lábios que desciam pelo pescoço, pela curva do ombro, pela linha do colo. Havia promessas não ditas no espaço entre um toque e outro.

Ali, naquele quarto abafado, não existiam coroas, nem funerais, nem conselhos. Existiam apenas duas criaturas que tinham aprendido a usar o próprio corpo como arma e recompensa.

— Ao sucesso da morte de Augusto — disse Marcellus, com um sorriso torto, enquanto a puxava de volta para si.

— Ao nascimento de um novo rei — corrigiu Selina, mordendo-lhe o queixo.

— Eduardo?

Ela riu, curto.

— Darel.

Por um instante, o nome pairou no ar como uma bênção profana. O filho que não sabia o quanto o próprio sangue importava. O príncipe amado que não sabia que seu lugar não era apenas à sombra do irmão.

Marcellus segurou o rosto de Selina com as duas mãos, obrigando-a a encará-lo.

Ela o puxou para outro beijo, longo, profundo, carregado de uma fome que não tinha nada de romântica. Era um pacto silencioso, selado não com sangue em pergaminhos, mas com sussurros e pele pressionada contra pedra fria.

Lá fora, o Corredor Branco seguia igual: silencioso, imaculado, aparentemente intocado pela sujeira que escorria por trás das paredes.

Lá fora, Eduardo caminhava com o coração apertado e a esperança, teimosa, de que conseguiria ser o rei que os livros exigiam.

Lá fora, Darel ria de alguma piada que tinha mais a ver com coxas e decotes do que com política.

Lá fora, Ysaac observava tudo com olhos de quem já enterrara mais segredos do que corpos.

Aqui dentro, Selina e Marcellus celebravam.

E, no centro invisível de todas aquelas linhas, o segredo do sangue esperava, em silêncio, o momento certo para explodir.