Capítulo 21 – Ecos

O caminho havia estreitado ao longo da manhã, acompanhando uma encosta irregular onde a vegetação crescia mais baixa e o vento circulava livre entre as pedras. Felipe seguia alguns passos à frente, atento ao terreno e ao ritmo de Eduardo, que mantinha o avanço em silêncio desde que haviam deixado o abrigo improvisado ainda antes do amanhecer. A recuperação permitia que ele andasse distâncias maiores agora, embora o corpo continuasse distante de qualquer sensação real de força. O ferimento permanecia limpo, mas a perda de sangue, os dias de alimentação precária e o esforço constante deixavam tudo mais pesado do que deveria ser.

Em alguns momentos, Eduardo percebia Felipe diminuindo discretamente o ritmo, ajustando o passo sem transformar aquilo em comentário. Nenhum dos dois parecia disposto a falar mais do que o necessário. O silêncio entre eles já não carregava desconforto. Era apenas o estado natural de duas pessoas tentando permanecer vivas tempo suficiente para alcançar o próximo dia.

O céu começou a se abrir quando a mata perdeu densidade ao redor da trilha. Felipe ergueu o olhar primeiro, parando tão rápido que Eduardo quase esbarrou nele antes de perceber o motivo. Acima das montanhas distantes, pequenas formas atravessavam o horizonte em movimentos largos e organizados, desaparecendo por instantes atrás das nuvens antes de reaparecerem mais adiante.

Eduardo estreitou os olhos, demorando alguns segundos para compreender o que via.
Alados.
O grupo permanecia distante demais para qualquer identificação, mas o padrão era claro. Não viajavam ao acaso. Cruzavam regiões específicas do vale, retornando depois para o mesmo ponto antes de seguir novamente em outra direção.

Felipe observou por mais alguns segundos antes de voltar a atenção para o caminho abaixo.
— Saia da trilha.

Eduardo não questionou. A mudança veio imediata, conduzindo os dois para uma faixa mais fechada entre pedras e vegetação baixa, onde o terreno dificultava a passagem e reduzia a visão da estrada principal alguns metros adiante. Felipe seguiu descendo primeiro, escolhendo pontos mais firmes antes de indicar o próximo passo com movimentos curtos da mão.

O som das rodas surgiu antes mesmo de conseguirem enxergar a estrada completamente. Madeira antiga, eixo desgastado, animais cansados demais para manter velocidade constante. Felipe levantou a mão outra vez, indicando silêncio, e se abaixou próximo da encosta.

— Fique abaixado.

Eduardo se acomodou atrás de uma formação de pedra parcialmente coberta por vegetação seca. Dali conseguia enxergar parte da estrada sem se expor diretamente. A carroça apareceu logo depois, acompanhada por três homens montados e outro caminhando ao lado dos animais. Mercadores. O cansaço nos rostos deixava claro que vinham de longe.

A conversa começou dispersa, perdida entre reclamações sobre atraso, estradas ruins e medo de novos bloqueios próximos a Heleno. Nenhum deles parecia preocupado em controlar o volume da própria voz. O vale carregava o som facilmente.

— Ouvi dizer que fecharam os portões internos depois do ataque.

— Fecharam tarde demais.

Um dos homens montados soltou um riso breve enquanto ajeitava o manto nos ombros.

— Sempre fecham tarde demais quando nobre resolve confiar em gente demais.

Outro cuspiu na lateral da estrada antes de responder.

— Pelo menos o reino não ficou sem comando.

Eduardo permaneceu imóvel.

— Dizem que o novo rei assumiu no mesmo dia.

— Melhor assim. Se deixam conselho decidir sozinho, metade do reino entra em disputa antes do amanhecer.

As rodas continuavam avançando devagar enquanto a conversa seguia sem urgência, como se discutissem clima ou preço de colheita.

— Falaram que os traidores fugiram.

— Falam muita coisa.

— E os alados?

— Estão procurando alguém. Foi o que ouvi perto da muralha sul.

O homem que caminhava ao lado da carroça ergueu o olhar rapidamente para o céu antes de continuar.

— Não quero cruzar estrada com eles.

— Ninguém quer.

A conversa perdeu força aos poucos, substituída pelo som dos animais e da madeira rangendo sobre o terreno irregular. Eduardo continuou observando até a carroça desaparecer parcialmente atrás da curva mais adiante, ainda ouvindo fragmentos desconexos sobre taxas, mercadorias perdidas e rumores vindos da capital.

Felipe esperou mais alguns instantes antes de se mover. Quando voltou o olhar para Eduardo, percebeu imediatamente a mudança no rosto dele. Não era exatamente choque. Era algo mais vazio. Como se parte do esforço necessário para continuar em movimento tivesse se dissolvido silenciosamente durante aqueles minutos.

— Vamos.

Eduardo assentiu e tentou se levantar sem apoio. O corpo respondeu tarde demais. A tontura veio primeiro, seguida pela sensação brusca de fraqueza atravessando as pernas antes que conseguisse firmar o equilíbrio. Felipe o segurou pelo braço antes da queda.

— Devagar.

Eduardo respirou fundo, esperando a visão estabilizar outra vez.

— Estou bem.

Felipe ignorou a resposta. A mão livre afastou parte do tecido próximo ao ferimento apenas o suficiente para verificar a condição da bandagem. Não havia infecção. Nenhum sinal de piora grave. Ainda assim, a pele pálida e a exaustão evidente tornavam inútil qualquer tentativa de fingir recuperação completa.

— Estamos exigindo demais de você.

Eduardo permaneceu em silêncio por alguns segundos, apoiando parte do peso na pedra atrás dele enquanto recuperava o ar.

— Eles já seguem em frente — disse por fim, com a voz mais baixa.

Felipe entendeu imediatamente do que ele falava.

O reino.

Darel.
Heleno.
Tudo continuava existindo sem esperar que Eduardo reaparecesse.

Felipe soltou o braço dele devagar, observando a estrada vazia ao longe antes de responder.

— O mundo sempre segue.

O vento voltou a atravessar o vale naquele momento, carregando o som distante das rodas já quase imperceptível estrada abaixo. Eduardo baixou o olhar por um instante, organizando algo dentro de si que ainda não conseguia nomear completamente.

Quando voltou a ficar de pé, o movimento veio mais lento do que antes.

Felipe retomou a caminhada sem acrescentar mais nada. Eduardo o acompanhou logo depois, mantendo o olhar distante da estrada principal enquanto os dois desapareciam novamente entre as pedras e a vegetação da encosta.