Capítulo 22 – Rastros

A paisagem começou a mudar ainda no início da tarde. As encostas abertas ficaram para trás aos poucos, substituídas por uma região mais irregular, marcada por árvores antigas e pedras cobertas de musgo que estreitavam a passagem entre os caminhos. O ar parecia mais frio ali, e o silêncio da mata carregava uma densidade diferente da que haviam atravessado nos dias anteriores.

Ysaac seguia à frente desde o amanhecer, mantendo o mesmo ritmo constante, embora observasse o terreno com atenção maior conforme avançavam. Seraphine reconheceu os primeiros sinais antes de comentar qualquer coisa. As marcas quase apagadas nas pedras. Os cortes antigos nos troncos próximos da trilha. Restos de símbolos consumidos pelo tempo.

— Isso fazia parte de uma rota antiga — disse ela, passando os dedos sobre uma marca desgastada na lateral da pedra. — Antes da aliança.

Elise se aproximou devagar, tentando distinguir o desenho sob o musgo.

— Ligada a Thalen?

— Mais antiga do que isso.

Ysaac observou o entorno enquanto elas falavam, atento ao som do vento circulando entre as árvores. Havia menos pássaros ali. Menos movimento.

— Continuamos.

Seraphine assentiu e voltou a acompanhar o caminho sem insistir na explicação. Elise percebeu o olhar rápido que ela lançou para as marcações antes de se afastar, como alguém que reconhecia mais do que desejava dizer naquele momento.

A trilha desceu por uma área mais fechada pouco depois, obrigando os três a atravessar um trecho estreito entre pedras altas. O solo úmido tornava o avanço mais lento, e o som dos próprios passos parecia permanecer preso entre as paredes naturais da passagem.

Foi Ysaac quem parou primeiro.

O movimento veio rápido o suficiente para fazer Elise interromper o passo imediatamente. Ele ergueu a mão sem olhar para trás.

Seraphine ouviu antes de perguntar.

Ferraduras.

Distantes ainda, mas próximas o suficiente para se aproximarem rápido demais naquele terreno.

Ysaac voltou alguns passos sem alterar a expressão.

— Saiam da trilha.

Elise sentiu a tensão surgir no mesmo instante. Não havia espaço para dúvida no tom dele. Os três deixaram o caminho principal e desceram por uma faixa irregular entre raízes expostas e pedras úmidas até alcançarem uma área mais baixa, parcialmente escondida pela vegetação.
O som dos cavalos ficou mais claro logo depois.

Dois.
Ysaac se abaixou próximo da encosta, observando através dos espaços entre os galhos. Elise permaneceu imóvel ao lado de Seraphine, tentando controlar a própria respiração enquanto ouvia as vozes se aproximando junto das ferraduras.

— O rastro continua recente.

— Então seguimos.

Os cavalos surgiram entre as árvores pouco depois. Os homens não usavam símbolos de Heleno, nem armaduras completas. Couro escurecido, capas gastas, armas leves presas junto ao corpo. Um deles carregava um arco curto nas costas. O outro mantinha a mão próxima da espada enquanto observava o terreno.

Caçadores.
Homens pagos.

O mais velho desmontou primeiro, analisando o solo próximo da trilha estreita.

— Três pessoas — disse, agachado. — Uma delas anda mais leve.

O outro soltou um leve ar pelo nariz.

— Mulher.

— Talvez.

O homem voltou a observar as marcas no terreno antes de erguer o olhar lentamente para a mata ao redor.

— Estão perto.

Elise sentiu o corpo enrijecer. Seraphine permaneceu imóvel ao lado dela, os olhos fixos em Ysaac.

Ele já havia desaparecido.

Elise demorou um instante para perceber.

Um segundo antes ele estava ali.

No seguinte, restava apenas a vegetação levemente deslocada entre as pedras.

O mercenário mais jovem desmontou logo depois, avançando alguns passos mata adentro enquanto afastava galhos baixos com a ponta da espada.

— Se encontrarmos o grupo primeiro, dobramos a recompensa.

O homem mais velho permaneceu próximo dos cavalos.

— E se o Fantasma estiver vivo?

O outro soltou uma risada curta.

— Então espero que a história seja exagerada.

O movimento seguinte aconteceu rápido demais para Elise acompanhar completamente.
Ysaac surgiu atrás do homem mais jovem sem qualquer aviso. Uma das mãos cobriu a boca dele antes que o som escapasse. A lâmina atravessou abaixo das costelas em um único movimento curto.

O corpo perdeu força imediatamente.

O mercenário mais velho ergueu o rosto no mesmo instante, percebendo tarde demais o silêncio abrupto da mata.

— Ei—

A palavra não terminou.

Ysaac avançou antes mesmo de o homem alcançar a espada. O choque derrubou os dois contra o solo úmido ao lado da trilha, espalhando folhas e terra molhada entre as pedras. O mercenário ainda tentou puxar a faca presa ao cinto, mas Ysaac segurou o braço dele e bateu a mão armada contra a pedra lateral com força seca.

O som do osso quebrando ecoou curto.

Elise viu o homem tentar gritar quando Ysaac pressionou a lâmina contra o pescoço dele.

— Quantos seguem atrás?

O mercenário respirava rápido demais.

— Não sei.

Ysaac pressionou mais.

— Quantos?

— Pequenos grupos. Caçadores. Recompensa por sobreviventes de Heleno.

Ysaac sustentou o olhar dele por um instante.

— Quem paga?

— Gente ligada ao conselho… nobres… atravessadores… eu não sei.

O cavalo mais próximo se agitou bruscamente quando o corpo do outro homem tombou parcialmente entre as raízes. O animal ficou inquieto pelo cheiro de sangue.

O mercenário aproveitou a distração para tentar alcançar a faca caída ao lado da pedra.

Ysaac foi mais rápido.

O golpe terminou antes que Elise percebesse completamente o movimento da lâmina.

O silêncio voltou quase imediatamente.

Apenas os cavalos continuavam inquietos entre as árvores.

Seraphine foi a primeira a se aproximar devagar. O olhar passou pelos corpos no chão antes de encontrar Ysaac.

— Outros podem ouvir.

Ele limpou a lâmina na roupa do homem morto sem responder de imediato.

— Então saímos agora.

Elise permaneceu parada por alguns segundos, ainda observando o lugar onde tudo havia acontecido. Não existia hesitação nos movimentos dele. Nem raiva. Nem esforço visível.

Apenas velocidade.

Ysaac ergueu o olhar para ela.

— Consegue montar?

Elise piscou uma vez, afastando a sensação estranha que ainda permanecia presa no peito.

— Consigo.

Os três deixaram a trilha poucos minutos depois, agora avançando mata adentro com os cavalos conduzidos por caminhos estreitos entre as árvores. O ritmo da viagem mudava outra vez.
E, pela primeira vez desde a fuga de Heleno, Elise compreendeu com clareza que o homem guiando aquele grupo era muito mais perigoso do que parecia quando permanecia em silêncio.