Capítulo 23 – Marcas Antigas
O ritmo da viagem mudou depois dos cavalos.
A floresta passou a deslizar mais rápido entre as árvores, enquanto o som abafado das ferraduras se misturava ao vento frio que atravessava a mata ao longo da tarde. Ysaac conduzia o grupo por caminhos estreitos e pouco usados, evitando trilhas abertas sempre que possível. Em alguns trechos, os galhos avançavam baixos o suficiente para obrigá-los a diminuir a velocidade. Em outros, o terreno afundava em faixas úmidas cobertas por folhas antigas e raízes grossas.
Elise seguia em silêncio desde que haviam deixado o lugar onde os mercenários morreram. O corpo ainda sentia o balanço irregular do cavalo pouco acostumado ao percurso fechado da mata, mas era outra sensação que permanecia presa dentro dela. Não exatamente medo. Apenas cansaço.
O mundo parecia continuar produzindo mortos em qualquer direção para onde olhassem.
Ysaac mantinha a atenção voltada para o caminho à frente. Em alguns momentos diminuía o ritmo apenas o suficiente para observar marcas no solo ou rastros quase apagados entre as pedras. Depois retomava o avanço sem necessidade de comentário.
Elise passou a observá-lo mais desde o confronto.
O modo como se movia.
Como desaparecia do ambiente quando queria.
Como o silêncio parecia acompanhá-lo até mesmo quando estava próximo.
Seraphine percebeu antes que ela dissesse qualquer coisa.
As duas seguiam alguns metros atrás de Ysaac quando a sacerdotisa aproximou o cavalo devagar.
— Não tenha medo dele.
Elise manteve os olhos na figura à frente por alguns segundos antes de responder.
— Não tenho medo. Só estou cansada de ver gente morrendo.
Seraphine permaneceu em silêncio por um instante breve.
— Isso não desaparece rápido.
Elise soltou um leve ar pelo nariz, cansado demais para parecer riso.
— Espero que não desapareça nunca.
O olhar de Seraphine se voltou para ela com atenção mais cuidadosa.
O silêncio voltou naturalmente depois disso. Apenas o som dos cavalos e do vento permanecia entre eles enquanto a floresta continuava fechando o caminho ao redor.
Ysaac não olhou para trás em nenhum momento.
Ainda assim, Elise teve a impressão de que ele havia escutado.
O terreno começou a subir pouco depois, conduzindo os três para uma região de pedras maiores espalhadas entre árvores antigas de troncos largos. Parte do caminho parecia existir havia tempo demais para ainda ser chamado de estrada. As marcações voltavam a aparecer com mais frequência agora, sempre discretas, quase consumidas pelo tempo.
Seraphine desmontou próximo de uma delas.
O símbolo estava gravado na lateral de uma pedra inclinada parcialmente coberta por musgo escuro. Elise desceu logo depois, aproximando-se enquanto a sacerdotisa afastava parte da vegetação com os dedos.
Linhas curvas.
Um círculo incompleto.
E marcas menores ao redor.
— Já vi isso antes — disse Elise.
Seraphine assentiu.
— Você viu da sala da Pedra.
Ysaac permaneceu montado, observando o entorno enquanto as duas analisavam a marca.
— O que significa? — perguntou Elise.
Seraphine deslizou os dedos pela gravação desgastada.
— Caminho protegido.
Elise franziu levemente a testa.
— Protegido por quem?
— Magia antiga.
A resposta veio simples o suficiente para soar verdadeira.
Seraphine ergueu o olhar novamente para o caminho adiante.
— Essas marcações existiam antes das alianças entre os reinos. Algumas foram destruídas. Outras desapareceram sozinhas com o tempo.
Elise observou a rocha por mais alguns segundos.
— E ninguém sabe quem fez isso?
— Alguns sabem partes da história.
Ysaac desmontou então, aproximando-se da marca sem o mesmo interesse das duas.
— História não impede que alguém siga nosso rastro.
Seraphine assentiu de leve.
— Nem sempre.
Ele passou os olhos pela trilha estreita que continuava subindo entre as pedras.
— Vamos continuar antes de escurecer.
O grupo retomou o caminho pouco depois.
A luz começou a enfraquecer entre as árvores conforme avançavam pela encosta. O frio aumentava aos poucos, trazendo consigo uma névoa fina que começava a se espalhar entre os troncos mais baixos da floresta.
Elise percebeu que a vegetação mudava devagar conforme subiam. Menos árvores densas. Mais pedras. Mais vento circulando livre entre os espaços abertos da encosta.
Thalen estava ficando mais próximo.
A percepção veio silenciosa, quase desconfortável.
Pela primeira vez desde a fuga de Heleno, a sensação de destino começou a parecer real.
Ysaac reduziu o ritmo perto do anoitecer, conduzindo os cavalos até uma área parcialmente protegida entre pedras altas próximas da encosta. Não era abrigo verdadeiro. Apenas o suficiente para ocultar fogo pequeno e impedir que fossem vistos facilmente à distância.
Elise desmontou devagar, sentindo o corpo inteiro protestar depois das horas seguidas de viagem.
Seraphine começou a organizar o espaço sem necessidade de conversa. Ysaac desapareceu entre as árvores logo depois, provavelmente verificando o entorno mais uma vez antes da noite fechar completamente.
Elise permaneceu observando a direção para onde ele havia ido.
O silêncio da mata parecia diferente agora.
Mais antigo.
Mais atento.
Seraphine percebeu o olhar dela outra vez enquanto terminava de prender os cavalos próximos das pedras.
— Ele faz isso todas as noites.
— Sim.
Elise baixou os olhos por um instante antes de responder.
— Acho que ele nunca descansa.
Seraphine terminou o nó da corda antes de erguer o olhar para a floresta escura.
— Alguns homens aprendem cedo demais que descansar pode custar vidas.
O vento atravessou a encosta naquele momento, espalhando folhas secas entre as pedras enquanto a noite começava a fechar completamente o caminho ao redor deles.
Em algum ponto além da mata, Ysaac continuava observando o escuro sozinho.