Capítulo 24 – O Peso do Trono
O som do aço ecoava pelo pátio interno desde o início da manhã. Guardas atravessavam o campo de treino em pares enquanto outros observavam próximos das muralhas, aguardando a vez de entrar no combate. O ritmo dos movimentos já havia retomado a normalidade dentro do castelo, como se Heleno tentasse convencer a si mesmo de que sobrevivera intacto aos acontecimentos recentes.
Darel avançou primeiro, desviando do golpe de um dos soldados antes de atingir o braço do homem com a espada de treino. O impacto arrancou risos e reclamações ao redor enquanto o guarda recuava esfregando o antebraço.
— Você bate como se estivéssemos em guerra, majestade.
Darel girou a espada entre os dedos antes de entregá-la para outro soldado.
— Se eu aliviar, vocês pioram.
Algumas risadas surgiram próximas das arquibancadas baixas ao redor do campo. O ambiente parecia leve pela primeira vez em dias.
Marcellus observava tudo próximo da entrada principal do pátio, os braços cruzados sobre o peito enquanto acompanhava os movimentos dos soldados com atenção silenciosa. Havia homens suficientes ali para transformar o treinamento em mera exibição para o novo rei, mas Darel participava como sempre fizera antes da coroação. Entrava nos combates. Corrigia postura. Derrubava homens maiores que ele quando necessário.
E os soldados respondiam bem àquilo.
Darel percebeu a presença de Marcellus pouco antes de bloquear outro golpe.
— Vai continuar só olhando?
Um leve sorriso surgiu no rosto do comandante.
— Estou avaliando se o rei ainda consegue vencer alguém sem armadura.
Alguns homens riram outra vez. Darel afastou o adversário com o ombro antes de caminhar até o suporte de armas próximo da areia.
— Escolha uma espada, então.
Marcellus desceu os poucos degraus de pedra do acesso principal sem pressa. O silêncio ao redor aumentou levemente enquanto ele pegava uma das espadas de treino.
Os dois começaram devagar.
O primeiro choque de aço ecoou seco pelo pátio. Darel avançou logo depois, obrigando Marcellus a recuar meio passo antes de recuperar espaço outra vez. Nenhum dos dois parecia interessado em espetáculo. Havia precisão demais nos movimentos para aquilo.
Os soldados acompanhavam atentos.
Darel atacou de novo, rápido o suficiente para arrancar um leve impacto de madeira contra madeira quando Marcellus desviou no último instante.
— Está adiantando o ombro antes do golpe — disse Marcellus.
Darel girou a espada outra vez.
— Ainda funciona.
— Contra eles.
O ataque seguinte veio mais forte. Marcellus aparou o golpe e atingiu o braço de Darel logo depois, arrancando uma reação irritada de alguns soldados próximos.
Darel sorriu enquanto recuava.
— Faz tempo que esperava por isso.
— Você anda dormindo pouco. Seus movimentos estão mais pesados.
O comentário surgiu baixo o suficiente para que apenas Darel escutasse.
O sorriso permaneceu no rosto dele por um instante curto demais.
Depois desapareceu.
Os dois voltaram a avançar quase imediatamente, trocando golpes rápidos até que Darel conseguiu desarmar Marcellus com um movimento brusco perto da guarda da espada.
O pátio reagiu com vozes e risadas logo depois.
Marcellus observou a própria espada caída na areia antes de erguer o olhar para Darel.
— Melhorou.
Darel respirava mais pesado agora. Ainda assim, havia satisfação visível no rosto dele enquanto alguns soldados se aproximavam outra vez.
Um dos homens entregou água ao rei antes de comentar casualmente:
— O príncipe Eduardo odiava treinar nesse horário.
O silêncio veio rápido demais.
O soldado percebeu o erro tarde.
Darel permaneceu imóvel por um breve instante enquanto segurava o recipiente nas mãos.
Então bebeu um gole antes de devolver a água ao homem.
— Eduardo odiava acordar cedo.
Algumas risadas nervosas surgiram ao redor. O ambiente voltou a respirar devagar logo depois, embora parte dos soldados evitasse olhar diretamente para o rei.
Marcellus observou Darel em silêncio.
A mudança havia sido pequena.
Quase invisível.
Mesmo assim, ele percebeu.
O treino terminou pouco depois. Os soldados começaram a deixar o pátio aos poucos enquanto criados atravessavam os corredores externos carregando água, panos e armaduras de reposição. Acima das muralhas, Heleno continuava funcionando.
Darel caminhou sozinho até a varanda lateral voltada para parte da cidade baixa. Dali conseguia ver o movimento distante das ruas próximas ao mercado e os reparos ainda espalhados em algumas áreas atingidas durante o ataque.
O reino seguia em frente.
Talvez rápido demais.
Passos leves surgiram atrás dele pouco depois.
Selina.
A rainha parou ao lado do filho sem dizer nada imediatamente. O olhar percorreu a cidade abaixo antes de encontrar o movimento dos soldados deixando o pátio.
— Eles confiam em você.
Darel manteve os olhos voltados para a muralha distante.
— Eles precisam confiar em alguém.
Selina observou o rosto dele por alguns segundos.
— E você precisa parecer descansado.
Darel soltou um leve ar pelo nariz.
— Então talvez eu precise começar a dormir.
A resposta veio leve o suficiente para soar quase como humor, mas Selina percebeu o desgaste escondido sob a frase.
— Ainda não encontraram sinal da Pedra — disse ela depois de um instante.
O olhar de Darel mudou discretamente.
— Nem de Ysaac?
— Não.
O silêncio voltou entre os dois.
Abaixo deles, o som metálico vindo do pátio começava a desaparecer conforme os soldados deixavam o campo de treino.
Darel apoiou as mãos na pedra fria da varanda.
Por um instante, a memória da ponte atravessou sua mente rápido demais para ser afastada completamente.
Água escura.
O impacto.
A mão do irmão tentando alcançar apoio.
Darel fechou os olhos por um breve segundo.
Quando voltou a abri-los, Heleno permanecia diante dele exatamente como antes.
Viva.
Funcionando.
Esperando ordens.
Darel percebeu que manter o reino de pé talvez fosse a parte mais fácil de tudo.