Capítulo 25 – O Silêncio da Noite

O sonho começou na ponte.

Água escura correndo abaixo das pedras. O vento atravessando o corredor aberto entre as muralhas. Eduardo parado diante dele, respirando pesado enquanto o som distante do castelo desaparecia pouco a pouco atrás da névoa.

Darel tentou dizer alguma coisa.

Nenhuma palavra saiu.

Eduardo avançou primeiro.

A lâmina atravessou abaixo das costelas com força suficiente para arrancar o ar de seus pulmões. Darel cambaleou para trás imediatamente, sentindo o calor do sangue se espalhar sob a roupa enquanto tentava entender o que havia acontecido.

Eduardo apenas o observava.

Sem raiva.

Sem pressa.

Como alguém que já sabia exatamente o que precisava fazer.

O chão desapareceu sob os pés de Darel no instante seguinte.

A queda veio junto do impacto da água escura.

Darel despertou antes de afundar.

O corpo ergueu rápido demais sobre a cama enquanto a respiração pesada quebrava o silêncio do quarto. Por alguns segundos ele permaneceu imóvel, ainda sentindo a pressão da lâmina atravessando o próprio corpo.

A mão deslizou instintivamente até o lado do abdômen.

Nada.

Apenas suor frio.

O castelo permanecia silencioso além das cortinas escuras.

Darel passou as mãos pelo rosto devagar, tentando recuperar o ritmo da respiração enquanto afastava os últimos fragmentos do sonho. O quarto parecia menor naquele horário da noite. Mais abafado. Mais vazio.

Ele se levantou pouco depois.

O corredor além dos aposentos reais permanecia quase deserto. Apenas duas tochas continuavam acesas próximas da escadaria principal, espalhando luz fraca pelas pedras do castelo. Darel atravessou os corredores em silêncio, ignorando o olhar rápido dos guardas posicionados próximos da ala principal.

O caminho até o pátio de treino já fazia parte do corpo dele havia anos.

Mesmo naquela escuridão.

O ar frio da madrugada atingiu o rosto de Darel no instante em que ele atravessou os arcos externos do castelo. O pátio permanecia vazio àquela hora, coberto apenas pela luz irregular das tochas presas próximas das muralhas.

O boneco de treino continuava preso ao centro da areia.

Darel pegou uma espada de madeira no suporte lateral antes de caminhar até ele.

O primeiro golpe ecoou seco no silêncio da madrugada.

Depois veio outro.

E outro.

A madeira atingia o boneco repetidamente enquanto Darel avançava sem ritmo definido, descarregando força demais nos movimentos. O impacto constante espalhava pequenas partículas de areia ao redor dos pés conforme ele continuava golpeando.

O suor começou a surgir rápido, descendo pela nuca e pelos braços enquanto a respiração ficava mais pesada outra vez.

Darel não parou.

Continuou avançando contra o boneco como se precisasse impedir o próprio corpo de desacelerar.

O som da madeira atingindo o alvo atravessou o pátio vazio durante longos minutos antes que outra presença surgisse próxima da entrada principal.

Marcellus.

O comandante observou a cena sem interromper imediatamente. O olhar passou pela postura de Darel, pela força excessiva nos movimentos e pela tensão acumulada nos ombros do rei.

— Está tentando vencer o boneco ou arrancar uma confissão dele?

Darel ainda atingiu o alvo mais duas vezes antes de parar.

A respiração permanecia pesada.

— Não consegui dormir.

Marcellus desceu os degraus de pedra devagar.

— Então resolveu acordar metade do castelo.

Darel apoiou a espada de madeira contra o ombro enquanto tentava recuperar o fôlego.

— Você também está aqui.

Um leve sorriso surgiu no rosto de Marcellus.

— Eu acordo cedo. Você continua acordado tarde demais.

O silêncio se instalou por alguns segundos enquanto o vento atravessava o pátio aberto.

Marcellus observou o boneco marcado pelos impactos recentes antes de voltar os olhos para Darel.

— Isso começou quando?

Darel desviou o olhar para a areia aos pés.

— O quê?

— Você sabe.

O rei permaneceu em silêncio por um instante breve.

— Faz diferença?

Marcellus cruzou os braços.

— Faz quando o homem que carrega a coroa começa a se destruir para continuar de pé.

Darel soltou um leve ar pelo nariz antes de afastar o suor da testa.

— Estou funcionando.

— Por enquanto.

O comentário permaneceu entre os dois enquanto o vento frio da madrugada atravessava o pátio mais uma vez.

Darel voltou os olhos para o boneco.

A cabeça de madeira marcada pelos golpes permanecia inclinada levemente para o lado.

Por um instante rápido demais, a memória do sonho atravessou sua mente outra vez.

Água escura.

A lâmina.

Eduardo olhando para ele sem dizer nada.

Darel apertou a mão ao redor da espada de treino até sentir os dedos doerem.

Marcellus percebeu.

O comandante permaneceu observando em silêncio, como se tentasse decidir até onde deveria avançar naquela conversa.

No fim, apenas disse:

— Volte a dormir algumas horas. Amanhã você continua sendo rei.

Darel manteve os olhos no boneco por mais alguns segundos antes de responder.

— Acho que essa é a parte mais fácil.

Marcellus não perguntou o que vinha depois.

O céu começava a clarear lentamente acima das muralhas quando o comandante deixou o pátio. Darel permaneceu sozinho por mais algum tempo, cercado apenas pelo silêncio da madrugada e pelo boneco marcado pelos impactos da espada.

Quando finalmente voltou para os aposentos, o castelo começava a despertar outra vez.

Antes do fim daquela semana, um segundo boneco de treino seria colocado dentro do quarto real.