CAPÍTULO 3 — A Luz de Thalen

Thalen despertava devagar, como quem sabe que a pressa é inimiga da perfeição. O sol nascente se debruçava sobre o castelo Granada, tingindo suas muralhas rosadas com tons dourados. A pedra, esculpida direto da encosta da montanha, tinha o brilho suave de uma rocha antiga que sobrevivera a guerras, reis e tempestades. E, ao redor de tudo, como um manto vivo, estendia-se o campo interminável de girassóis — flores altas, firmes, que giravam obedientes para seguir a luz. O famoso mar dourado de Thalen.

O castelo parecia flutuar sobre aquele oceano amarelo.

No quarto mais alto da torre sul, algo se mexeu debaixo das cobertas branco-creme.

De repente — thump! — um gato cinzento, peludo e atrevido, aterrissou bem no meio da cama, miando como se tivesse acabado de salvar o mundo.

Elise abriu os olhos devagar, piscando contra a luz suave que entrava pela janela arqueada. O carvalho ancestral do lado de fora, tão velho quanto o próprio reino, balançava seus galhos retorcidos como se estivesse dando bom-dia.

— Você de novo — murmurou Elise, com um sorriso que nascia fácil demais.

O gato respondeu miando, convencido de que era indispensável.

Elise se sentou, o cabelo desgrenhado caindo sobre os ombros. Era adorável até com cara de sono. Havia algo nela — talvez o jeito de olhar, talvez o riso pronto — que fazia as pessoas se abrirem como portas sem tranca. Servos, soldados, visitantes… todos gostavam dela. Elise tinha aquele tipo raro de alegria que não precisava anunciar-se. Ela simplesmente iluminava.

E naquele dia, como em todos os outros, ela ignorou completamente a bandeja de café deixada ao lado da cama, com frutas cortadas, pão quente, mel, leite e tudo o que uma Lady deveria comer sem levantar um único dedo.

Elise empurrou a bandeja para o lado.

— Vamos, Cinzento. Você sabe que não gosto disso. Café na cama é para quem não entende a graça da cozinha.

O gato pulou no chão, como se concordasse.

Elise levantou, vestiu o robe leve azul com botões de madeira clara e saiu pelo corredor de pedra lisa. As escadas de Granada eram longas, estreitas, e faziam os pés descalços de Elise ecoarem como sinos suaves pelo castelo.

Todo dia era assim:

A nobreza achando que ela era uma pequena joia perfeita.

A cozinha sabendo que ela era só Elise.

Quando atravessou a porta de madeira reforçada que levava ao salão dos fogões, o cheiro de pão recém-assado a envolveu como um abraço quente.

— Bom dia, meus amores! — anunciou ela, já sorrindo.

A cozinheira, Dona Mareen, nem teve tempo de virar. Elise se aproximou por trás, envolveu os braços ao redor da mulher e deu um beijo estalado em sua bochecha larga e corada.

SMACK!

— Mas menina! — protestou Mareen, fingindo indignação. — Vai me matar do coração um dia desses.

— Só se for de alegria — respondeu Elise, escapando antes de levar um pano de prato na cabeça.

Os empregados riram.

Riam sempre.

Era impossível não rir perto dela.

Elise pegou um pão ainda quente, rasgou com as mãos e soprou o vapor que escapou como uma pequena nuvem perfumada.

Aquele era seu ritual.

Seu refúgio.

Sua pequena rebeldia diária contra tudo o que o título de futura rainha exigia.

E Thalen inteiro parecia suspirar ao vê-la viva, leve e inteira naquele instante.

O cheiro de pão recém-saído do forno ainda pairava no ar quando Elise chegou à porta lateral que dava para o pátio de serviço. Era ali que o castelo Granada respirava o mundo exterior. Por aquele caminho entravam mantimentos, soldados, cartas, notícias ruins e, de vez em quando, coisas boas o bastante para fazer o coração dela acelerar.

Ela ouviu primeiro o ranger grave das rodas de madeira, depois o bater ritmado de tampos de barril se chocando uns nos outros, como se brindassem antes mesmo de chegarem ao salão.

Ela não precisou ver.

Barris significavam vinho.

E vinho, em Thalen, significava apenas uma coisa.

Felipe.

O sorriso veio antes que ela percebesse. Um sorriso que começava nos olhos e só depois alcançava a boca, como quem se lembrava de muitas manhãs parecidas com aquela. Desde criança, Felipe sempre chegava em barris, caixas ou armaduras emprestadas. Mas ele vinha. Sempre vinha.

Elise desceu os degraus que ligavam o corredor interno ao pátio, sentindo a pedra fria sob os pés descalços. O vento trouxe o cheiro forte do vinho novo misturado ao pó da estrada e ao perfume distante dos girassóis.

No pátio, duas carroças estavam sendo descarregadas. Homens erguiam barris marcados com o brasão da família de Felipe: uma espiga de trigo cruzada com um cacho de uvas, entalhados a fogo na madeira. Era a maior produção de vinho de todos os reinos, orgulho de Thalen e desculpa oficial para brindar qualquer coisa, da paz aos aniversários de galinhas.

No meio da confusão organizada, ele apareceu.

Felipe saltou da carroça com a facilidade de quem crescera em cima de rodas, barris e cavalos. Não era tão alto quanto Noel, o irmão gigante, mas também não passava despercebido. Tinha ombros largos de quem aprendera a manejar espada antes de saber escrever direito, o cabelo castanho escuro preso num rabo simples e um sorriso que parecia sempre pronto, como se guardasse piadas no bolso.

Uma cicatriz fina cortava o queixo, lembrança de uma batalha idiota com uma cerca quando tinha nove anos. Augusto, na época, achou graça. O antigo comandante, pai de Felipe, quase infartou.

Felipe olhou em volta, farejando o pátio como quem procura algo muito específico. Encontrou.

— Se eu seguir o cheiro de pão rou… — começou ele, mas não terminou.

Elise já atravessava o pátio.

Ela não andou até ele. Correu. O robe azul balançando atrás, o cabelo solto dançando no ar. Felipe mal teve tempo de abrir os braços. Ela se chocou contra ele num abraço inteiro, daqueles que esmagam qualquer tentativa de formalidade.

— Você demorou — reclamou Elise, sem largá-lo.

— Eu cheguei um dia antes, você é que acordou tarde — respondeu ele, rindo, fechando os braços ao redor dela. — E ainda veio sem sapatos. Isso é jeito de uma futura rainha descer pro pátio?

— É jeito de Elise — retrucou, afastando-se só o suficiente para olhar o rosto dele. — Você sabe muito bem.

Os servos fingiam trabalhar com mais afinco, mas ninguém deixava de espiar. Era uma cena conhecida: a menina do castelo e o filho do comandante, repetida desde a infância, como uma tradição que ninguém ousava interromper.

Felipe a observou por um instante mais longo do que deveria. O rosto dela estava o mesmo: luz demais nos olhos, riso fácil, uma teimosia mansa escondida no queixo erguido. Mas havia algo diferente também. Uma sombra breve, que passava quando o assunto, mesmo sem ser dito, se aproximava de Heleno.

— Você está bem? — perguntou ele, no tom de quem pergunta por hábito, mas se importa de verdade.

— Estou em Thalen, com pão quente, vinho chegando e você reclamando dos meus pés descalços — respondeu. — Eu estaria melhor onde?

— Em Heleno, talvez — arriscou Felipe. — Ou, pelo menos, pensando com um pouco mais de carinho no homem com quem vai se casar.

Ela fez uma careta.

— Começou — murmurou. — Felipe, por favor…

— Eu cresci ouvindo você falar de Eduardo — interrompeu ele, com calma. — Cresci vendo você roubar pão comigo e depois guardar metade para ele, como se ele fosse aparecer a qualquer momento pela porta da cozinha. Cresci ouvindo as cartas que você recebia, Elise. Não me peça para fingir que isso é só um acordo entre reinos.

Elise apertou o pão ainda quente entre os dedos, como se aquilo a ajudasse a segurar o próprio peito no lugar.

Eduardo.

O nome era um nó no estômago e um sopro no coração, ao mesmo tempo.

— Ele perdeu o pai — disse, enfim. — Augusto se foi. E eu estou aqui, comendo pão no meio do pátio, enquanto ele tenta se acostumar com a ideia de carregar uma coroa.

Felipe recostou no barril mais próximo, cruzando os braços.

— Ele não vai carregar isso sozinho — afirmou. — Augusto não era idiota. Deixou gente em volta dele. Selina, Darel, o Conselho, Ysaac… e você.

— Eu ainda estou em Thalen — lembrou Elise.

— Por pouco tempo — respondeu Felipe. — Os barris que eu trouxe hoje vão estar nas mesas de Heleno no dia do casamento. E você vai estar no altar.

Ela silenciou.

O casamento. A palavra vinha cercada de laços, assinaturas, mapas e expectativas. Thalen e Heleno, unidos numa aliança que valia não apenas terras e comércio, mas paz. Augusto e o antigo comandante haviam sonhado com aquilo muito antes de Elise aprender a amarrar os próprios sapatos.

Felipe olhou para o pátio, como se pudesse ver, por cima dos girassóis, os telhados distantes de Heleno.

— Meu pai ainda fala de Augusto como se ele fosse entrar pela porta a qualquer momento — comentou. — Mesmo sem as pernas, ele ainda tenta montar em lembranças como se fossem cavalos.

O pai de Felipe havia sido o antigo comandante da guarda. Melhor amigo de Augusto nas campanhas, braço direito em conselhos e mesas de guerra. A queda do cavalo, anos atrás, esmagara suas pernas e o tirara das batalhas. Noel, o filho mais velho, perdera um braço na mesma guerra. Augusto quase obrigou os dois a aceitarem terras, vinhas e sossego como recompensa.

Eles aceitaram tudo, menos sossego.

— Ele ainda fala de você, sabe? — continuou Felipe, voltando o olhar para Elise. — Diz que, se Augusto estivesse vivo, estaria sorrindo feito bobo com essa união. Thalen e Heleno, Elise e Eduardo. Duas terras, duas famílias, dois teimosos.

— Três — corrigiu ela. — Você é o terceiro teimoso nessa história.

Felipe riu.

— Eu sou só o que carrega o vinho e empurra vocês dois para o mesmo caminho.

Ela o encarou, séria por um instante.

— E você? — perguntou. — O que ganha com isso?

Felipe deu de ombros.

— Eu? — Ele pareceu pensar. — Ganho um amigo vivo, uma amiga feliz e a chance de beber do melhor vinho na melhor mesa quando vocês resolverem finalmente agir como dois apaixonados e não como dois tratados diplomáticos de carne e osso.

Elise não conseguiu evitar o riso.

— Você fala como se fosse fácil.

— Não é — respondeu ele. — Você sabe disso. Ele sabe disso. Meu pai sabe disso desde a primeira vez que voltou da guerra sem conseguir ficar em pé. Mas algumas coisas difíceis valem o esforço.

Um silêncio confortável se estendeu entre os dois. O tipo de silêncio que só existe entre pessoas que já dividiram risos, choros e pães roubados demais para contar.

— Você falou com ele? — perguntou Elise, quase num sussurro. — Com Eduardo?

— Falei — respondeu Felipe. — Passei por Heleno há alguns meses. Ele estava… — procurou a palavra certa. — Menor que os pergaminhos.

Os olhos de Elise se suavizaram.

— Ele sempre teve medo de não estar à altura.

— Então é aí que você entra — disse Felipe, simples. — Reis precisam de gente que os lembre de quem eles eram antes de usarem mantos bordados. Você faz isso melhor do que qualquer um.

Ela respirou fundo, o peito apertado e leve ao mesmo tempo.

Noel apareceu na entrada do pátio, a silhueta enorme enchendo o vão da porta. Um braço só, mas força suficiente para erguer dois barris ao mesmo tempo. Ele ergueu um deles como se fosse um copo pequeno e gritou:

— Felipe! Se você parar mais uma vez para conversar com essa menina, vou mandar o próximo carregamento sem você!

— Ele me ama — comentou Felipe, em tom confidencial. — Só não sabe demonstrar.

— Ele sabe muito bem — retrucou Elise. — É assim que famílias teimosas dizem “cuidado” em voz alta.

Felipe se afastou alguns passos, andando de costas.

— Vou terminar o trabalho antes que Noel me jogue dentro de um barril e me envie como brinde — disse. — Mais tarde, quero falar com você com calma. Sobre a viagem. Sobre o casamento. Sobre Eduardo.

— Mais sermões? — provocou Elise.

— Mais verdades — respondeu ele. — E talvez um pouco de vinho.

Ela sorriu.

— Vá trabalhar, filho do comandante.

— Vá calçar sapatos, futura rainha.

Felipe voltou aos barris, gritando ordens, rindo com os trabalhadores, carregando peso como se fosse leve. Elise ficou parada por um momento, observando. A família dele tinha dado muito sangue por aqueles reinos. O pai perdera as pernas. Noel, um braço. Felipe, a leveza de uma vida simples. Todos tinham apostado no mesmo futuro.

Um futuro que agora passava, inevitavelmente, pelo nome dela e pelo nome de Eduardo.

Elise apertou o pão entre os dedos pela última vez e deu uma mordida grande, como se estivesse provando coragem.

Thalen se estendia ao redor como um mar dourado.

Em breve, ela partiria daquele mar para o branco imaculado de Heleno.

E, entre um reino e outro, Felipe continuaria sendo a ponte teimosa que sempre fora.