CAPÍTULO 4 — Quando o Castelo Respira Novamente

O vento de Heleno não era como o de Thalen. Em Thalen, o vento carregava perfume de pão quente e girassóis virados para o sol; aqui, ele atravessava a pele como se estivesse verificando quem merecia entrar. Elise puxou o manto sobre os ombros e respirou fundo quando os portões se abriram diante dela.

As muralhas erguiam-se altas demais, brancas demais, silenciosas demais. Nada naquela cidade parecia acolher de imediato; tudo observava primeiro. Até as janelas. Até as pedras. Até os soldados alinhados como se a chegada dela fosse um julgamento.

Felipe desmontou um pouco antes que ela, ansioso e maravilhado como uma criança diante de um teatro grandioso.

— Então… isso é Heleno — murmurou ele, como quem tenta não parecer impressionado.

Elise sorriu, embora o coração estivesse apertado demais para orgulho. A viagem, o peso do futuro, e um nome repetido tantas vezes naquele castelo que ela não podia ignorar. Eduardo. Eduardo. Eduardo.

Ysaac já os esperava do lado de dentro do portão. O olhar dele não denunciava emoção alguma, mas havia um relaxamento quase imperceptível nos ombros — o suficiente para Elise entender que ele estava… satisfeito? Aliviado? Talvez apenas atento, como sempre.

— Bem-vinda à fortaleza — disse Ysaac, inclinando a cabeça. — O príncipe está a caminho.

A frase bastou para que Elise perdesse o ar por um instante.

E então ele veio.

Eduardo desceu os degraus da entrada com a pressa tímida de quem não sabe se deve correr ou fingir que sempre esteve ali.

Os olhos, quando encontraram os de Elise, pareciam trazer primavera ao pátio inteiro, como se nada em Heleno fosse frio o bastante para apagar aquele brilho.

— Elise… — foi tudo o que conseguiu dizer, e ainda assim parecia uma oração.

Ela inclinou levemente a cabeça, num gesto de respeito, mas os dois sorriram ao mesmo tempo, como quem não consegue sustentar formalidade alguma.

— Alteza — respondeu Elise, com voz baixa. — É uma honra, enfim, chegar até aqui.

Felipe interrompeu a cena primeiro, com o mesmo entusiasmo que tinha desde criança:

— Eduardo! Não acredito que finalmente estamos no castelo! Elise quase me matou com a curiosidade sobre você durante o caminho.

— Felipe! — Eduardo riu, abraçando-o com força. — Você continua falando demais, graças aos céus.

E então, mais contido, voltou-se para Elise.

— Espero que a viagem não tenha sido pesada.

Elise ia responder, mas percebeu algo curioso no fundo do olhar dele: uma hesitação, uma tensão que não vinha dela. Como se Eduardo estivesse tentando parecer forte demais… ou tentando esconder que, ao vê-la, lembrou-se da própria responsabilidade.

Ainda assim, o sorriso dele era sincero. Aquele sorriso que ela tinha ouvido tantas histórias a respeito. Um sorriso de bondade, não de autoridade.

— Foi mais leve do que eu imaginei — disse Elise, e Felipe tossiu de propósito atrás dela, como quem não perde a ocasião.

Eduardo a ignorou por um momento. Estava encantado. Como se a chegada dela fizesse algo no castelo inteiro respirar novamente.

Ysaac observava a cena com atenção. Elise notou — só não soube interpretar o porquê daquele olhar grave.

O som dos portões fechando atrás deles ecoou pelo pátio.

E era como se, ao mesmo tempo, algo tivesse acabado de começar.

Selina atravessou a entrada com a leveza de quem aprendeu a transformar silêncio em poder. Nada nela era exagerado: o vestido escuro, a tiara modesta, os cabelos presos com precisão matemática. Mas havia algo nos olhos — uma chama cuidadosa, como lâmina que reflete luz para distrair do corte.

Os guardas se curvaram. Ysaac também inclinou a cabeça, mas sua rigidez denunciava que aquele cumprimento era mais protocolo do que respeito.

— Elise de Thalen… — disse Selina, observando-a de cima a baixo. — Quando ouvi que viria, imaginei que estaria diferente… mas vejo tanto da sua mãe nos seus olhos que chega a ser inquietante.

Elise respirou fundo. Não esperava que Selina mencionasse sua mãe tão cedo, nem com aquela voz que misturava nostalgia com algo mais afiado.

— Majestade — respondeu ela, inclinando a cabeça. — Faz muito tempo.

— Tempo demais — disse Selina. — E, ao mesmo tempo, não o suficiente.

Eduardo observava a cena com o carinho familiar de quem crescera ao lado dela. Felipe sorria com nostalgia, satisfeito pelo reencontro dos três.

Selina, porém, não sorria.

— Conheci sua mãe antes de você nascer — continuou a rainha. — E depois seu pai. Ambos tinham luz demais para um mundo que não sabe lidar com isso. — Seus olhos se estreitaram. — Vejo essa mesma luz em você. E isso me preocupa.

Elise sustentou o olhar sem recuar.

— Prometo não decepcionar.

Selina aproximou-se, tocando o braço dela com frieza calculada.

— Não quero o possível de você, minha menina. Quero o extraordinário.

Eduardo respirou fundo, tenso. Felipe desviou o olhar. Ysaac cruzou os braços, atento.

Selina então abriu espaço ao lado, como uma anfitriã que encerra o prólogo de sua própria peça.

— Venha. Há partes do castelo que precisam reencontrar você… assim como eu reencontrei.

Elise seguiu a rainha, sentindo que o castelo inteiro — paredes, janelas, passos antigos — observava sua chegada com a mesma intensidade silenciosa que Selina.

Elise ainda caminhava ao lado de Selina quando ouviu passos atrás de si. Não eram pesados como os de guardas, nem firmes como os de Ysaac. Eram passos tranquilos. Passos de quem tem certeza de que o chão o reconhece.

— Ora… então a convidada mais esperada chegou mesmo.

Elise virou-se.

Darel estava encostado no batente de uma porta lateral, braços cruzados, sorriso fácil. O sol que entrava pelas janelas parecia escolher exatamente onde tocar o rosto dele, destacando olhos claros, expressão calma, presença confortável.

— Darel — disse Eduardo, num tom que tentava ser casual, mas trazia uma pontada de desconforto. — Pensei que estivesse no treinamento.

— Estava — respondeu o irmão, aproximando-se com elegância — até ouvir que Elise tinha chegado. E como eu poderia perder a chance de reencontrar uma amiga de infância?

A palavra “amiga” saiu doce, chegou como um cobertor quentinho ao coração de Elise.

Ela respirou fundo, tentando não parecer insegura naquele lugar.

— Faz muito tempo, Darel — disse ela.

— Tempo suficiente — ele respondeu, segurando a mão dela com delicadeza exagerada.

Felipe olhou para a mão de Darel, depois para o rosto de Elise, como quem observa duas nuvens prestes a colidir.

— Está ainda mais parecida com sua mãe — disse Darel, e dessa vez a frase carregou algo mais profundo, quase íntimo demais para o pouco que estavam dizendo. — Ela tinha esse jeito de iluminar um lugar só por existir nele.

Selina observava a cena com um meio-sorriso que não pertencia ao momento. Parecia satisfeita. E parecia avaliar Darel também.

— Não sufoque nossa convidada com seu charme, meu querido — disse ela, com falsa leveza — Temos muito a mostrar a Elise antes do entardecer.

— Só estava sendo gentil, mãe — retrucou Darel.

Eduardo, que até então mantinha um silêncio incômodo, avançou meio passo para perto dela. Uma proteção instintiva, fraterna, quase imperceptível.

— Elise precisa descansar da viagem — disse ele, tentando recuperar o controle da situação.

— Ah, irmão — replicou Darel, rindo baixinho — não a trate como se fosse feita de vidro.

Eduardo enrubesceu.

— Vamos — disse Selina, encerrando a cena com sua autoridade silenciosa. — Elise tem um dia longo pela frente.

Elise acenou brevemente para Darel.

Ele curvou-se com elegância teatral.

Eduardo desviou o olhar.

Felipe mordeu o lábio, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.

Ysaac relaxou um grau imperceptível. Se Darel estava ali, Eduardo estava seguro.

Enquanto caminhava novamente ao lado da rainha, Elise sentiu uma estranha inquietação vibrar no fundo do peito. Como se o castelo tivesse acabado de apresentar sua peça mais bonita… e seu ator mais perigoso.