CAPÍTULO 5 – O Fantasma

O Corredor Branco respirava.

Não era um som, não exatamente. Era uma pressão sutil no ar, uma vibração que apenas quem sobrevivera tempo demais entre lâminas e promessas quebradas aprendia a reconhecer. Ysaac permaneceu imóvel junto a uma das colunas, os braços soltos ao lado do corpo, a postura relaxada o suficiente para parecer apenas mais um guarda. Nada nele denunciava prontidão — e ainda assim, cada músculo aguardava.

Seus olhos acompanharam Eduardo se afastando ao lado de Selina.

O jovem rei caminhava com o peso recente da coroa invisível sobre os ombros. Selina, ao seu lado, movia-se com a leveza calculada de quem nunca desperdiçava um gesto. Para qualquer observador comum, era apenas uma rainha guiando o filho pelo castelo. Para Ysaac, era um tabuleiro em movimento.

Ele inspirou fundo.

Ar frio. Cera derretida. Pedra antiga. Um traço distante de vinho seco. O leve azedume de couro úmido vindo da guarda no pátio interno. Nenhum perfume estranho. Nenhum metal recém-polido. Nenhum cheiro de medo — ainda.

Nada fora do lugar.

Ainda.

Seu olhar deslizou pelo ambiente como o de um cão farejador, atento ao que os outros ignoravam: o ranger mínimo de uma dobradiça, o peso desigual de um passo, o suor ácido de alguém que mente. Pequenas dissonâncias que, somadas, anunciavam a morte antes mesmo que ela soubesse que estava a caminho.

Hoje, o castelo parecia… inteiro.

Quase.

Elise atravessava o corredor mais adiante, falando com uma serva que sorria como se tivesse sido escolhida pelos deuses para aquele instante. A luz parecia segui-la. Não era metáfora. O branco das paredes refletia o dourado de seus cabelos, o brilho vivo dos olhos, o riso que nascia fácil demais para aquele lugar acostumado a sussurros.

Ela roubava a beleza de tudo ao redor.

E devolvia em dobro.

Ysaac desviou o olhar primeiro. Não por desrespeito. Por disciplina.

Luz demais cega.

Ainda assim, registrou: inquieta. Atenta. Fora de ritmo com o castelo.

Isso bastava.

Seu foco retornou ao único objetivo que importava: proteger o futuro rei.

Eduardo desapareceu na curva do corredor, Selina ao seu lado como uma sombra bem-vestida. O ar não mudou. O silêncio não rachou. Nenhum presságio se apresentou.

Mas Ysaac não relaxou.

Nunca relaxava.

Ao longo dos anos, muitos nomes haviam tentado capturar o que ele era.

O Negro.

O Invicto.

O Sério.

Rótulos que os homens usam quando não entendem o que temem.

Mas havia um nome que permanecia.

Fantasma.

Não por superstição. Não por poesia.

O fantasma é silencioso.

Os inimigos demoram a perceber sua presença.

Às vezes, morrem sem entender que não estavam mais sozinhos.

Ysaac não era o mais forte dos homens. Nunca precisou ser.

Era o mais rápido. O mais preciso. O que não cometia erros.

Movia-se com a graça de uma bailarina treinada para não tocar o chão…

e atacava com a certeza de uma serpente que já escolheu onde morder.

Os soldados mais jovens sussurravam histórias sobre ele nas cozinhas e nos estábulos, como se falar baixo pudesse impedir que o próprio Fantasma surgisse atrás deles. Diziam que ele aparecia antes do perigo. Diziam que ele não dormia. Diziam que o castelo o informava quando alguém mentia.

Nenhum deles sabia de onde ele viera.

Nem por que o antigo comandante Eitor, homem que não se compadecia nem de reis, permitira que um órfão de guerra permanecesse em seus estábulos.

Ysaac fechou os olhos por um breve instante, apenas o tempo de uma respiração medida.

Couro. Feno. Sangue seco. Chuva sobre terra revolvida.

O passado não chegava como lembrança.

Chegava como cheiro.

E foi assim que tudo começou.

Quando era um pequeno órfão de guerra, sentiu os primeiro cheiros.

Ysaac tornou-se cavalariço antes de entender o que a palavra significava.

Ninguém lhe explicou funções ou deveres. Apenas apontaram para baldes, escovas, arreios e para os animais que dependiam deles. Ele observou. Aprendeu pelo gesto, pelo erro e pela repetição.

Os outros rapazes reclamavam do cheiro, do peso da água, das mordidas ocasionais. Ysaac não reclamava. O estábulo era previsível. Cavalos avisavam antes de atacar. Madeira rangia antes de ceder. O feno seco denunciava fogo com antecedência. Diferente dos homens, os animais não mentiam.

Eitor passava pelos estábulos todas as manhãs.

Não para fiscalizar. Para observar.

O comandante caminhava entre as baias com passos firmes, a capa roçando a madeira, os olhos avaliando sem pressa. Parava diante de cada animal, verificava cascos, dentes, respiração. Um exército podia perder batalhas. Cavalos não podiam falhar.

Na terceira semana, Eitor encontrou Ysaac dormindo encostado na lateral de um garanhão negro.

O animal, conhecido por derrubar tratadores experientes, permanecia imóvel, a respiração profunda e calma.

— Ele escolheu você — disse o comandante.

Ysaac abriu os olhos, mas não se moveu. Sabia que qualquer gesto brusco quebraria o pacto silencioso que havia estabelecido.

— Ou você o escolheu — acrescentou Eitor.

Naquele dia, o menino recebeu sua primeira tarefa direta: cuidar do garanhão.

O animal exigia força para contê-lo, mas não foi a força que o dominou. Foi o ritmo. Ysaac aprendeu a se mover no mesmo compasso da criatura, a antecipar tensões pelo tremor mínimo da pele, a reconhecer medo antes que ele se transformasse em violência.

O estábulo tornou-se sua escola.

Aprendeu que pressa gera acidentes.

Que ruídos desnecessários assustam.

Que mãos firmes transmitem segurança.

Que hesitação provoca ataque.

Eitor observava tudo, sem elogios, sem correções.

O silêncio do comandante era aprovação suficiente.

Certa manhã, um soldado novato tentou montar o garanhão antes do tempo. O cavalo se ergueu, derrubando-o contra a madeira. O impacto ecoou pelo estábulo como um aviso. Ysaac já estava em movimento antes que o grito terminasse. Segurou o arreio, encostou o ombro no pescoço do animal e respirou.

Lento.

Constante.

O cavalo cedeu.

O soldado, atordoado, olhou para o menino como se visse algo impossível.

Eitor, ao fundo, apenas assentiu.

Naquele gesto mínimo, Ysaac compreendeu que não estava ali por pena.

Estava ali porque servia.

E servir, descobriu, era uma forma silenciosa de poder.

À noite, enquanto os outros dormiam profundamente, ele percorria as baias, verificando trancas, ouvindo respirações, memorizando padrões. Um casco batido fora do ritmo era anotado. Uma corrente frouxa era ajustada. Um cheiro estranho era investigado.

Sem perceber, ampliava sua vigilância para além dos animais.

Começava a vigiar o mundo.

Os cavalos foram os primeiros mestres de Ysaac.

Não falavam, não explicavam, não perdoavam erros. Ainda assim, ensinavam mais do que qualquer soldado que gritasse ordens no campo de treino. Um cavalo não tolera hesitação. Não respeita títulos. Não distingue rei de estábulo. Ele responde apenas ao que sente.

Ysaac aprendeu a sentir antes de agir.

Observava o tremor mínimo na pele de um animal antes do coice, o recuo das orelhas antes da mordida, a respiração curta que antecede o pânico. Cada sinal era um aviso. Cada aviso, uma chance de evitar dor.

Com o tempo, percebeu que os homens não eram tão diferentes.

Soldados mentiam com palavras, mas seus corpos denunciavam: dedos rígidos sobre o cabo da espada, mandíbula tensa, suor ácido nas mãos. O medo tinha cheiro. A raiva tinha ritmo. A mentira tinha silêncio demais.

O estábulo ensinou-lhe a escutar o que não era dito.

Eitor raramente falava. Quando falava, eram frases curtas, sem adornos, como golpes bem dados.

— Ouça antes de olhar.

— Olhe antes de agir.

— Aja antes que seja tarde.

Ysaac guardava cada palavra como quem guarda água em tempo de seca.

À noite, o estábulo mudava.

O calor dos corpos cedia lugar ao frio que subia da terra. Os sons tornavam-se nítidos: o arrastar de um rato, o estalar da madeira, o sopro pesado de um animal sonhando. Ysaac caminhava entre as baias sem lamparina, guiando-se pela memória do espaço e pela cadência das respirações.

Aprendeu a andar sem fazer a palha estalar.

Aprendeu a abrir trancas sem som.

Aprendeu a parar antes que o instinto alheio o percebesse.

Certa madrugada, encontrou um ladrão.

O homem havia entrado pelo portão lateral, acreditando que cavalos eram riqueza fácil. Avançava devagar, o saco de estopa já preparado. Não viu o menino encostado na sombra entre duas baias.

Ysaac não gritou.

Não correu.

Observou.

O ladrão tremia. O cheiro de medo era forte, azedo. Suas mãos hesitavam ao tocar o arreio. Não era um homem acostumado ao crime. Era um homem desesperado.

Ysaac deu um passo à frente.

A palha não estalou.

O ladrão se virou tarde demais.

Quando os guardas chegaram, encontraram o homem sentado no chão, as mãos erguidas, o menino ao lado, imóvel como parte da madeira. Nenhum golpe havia sido trocado. Nenhum alarme soara.

Eitor observou a cena em silêncio.

— Você ouviu — disse apenas.

Ysaac assentiu.

Naquele momento, compreendeu que a força não era o primeiro recurso. O silêncio era.

E o silêncio, descobriu, podia ser mais alto que qualquer grito.

A primeira morte não veio em campo aberto.

Veio na chuva, no limite entre o estábulo e a muralha leste, onde a água transformava terra em lama e passos em silêncio.

Ysaac tinha doze anos.

A rotina o levara até ali: verificar trancas, ouvir respirações, sentir o ar. A chuva abafava sons, distorcia cheiros, confundia rastros. Era o tipo de noite que tornava homens corajosos… e ladrões ousados.

O cavalo relinchou baixo.

Não foi medo. Foi aviso.

Ysaac parou sob o beiral, os pés descalços na lama fria. Inspirou. Couro molhado. Ferro. E algo mais — óleo rançoso, estranho ao castelo.

Movimento junto à muralha.

Dois vultos, não um.

Um tentava forçar a porta lateral do depósito de arreios. O outro vigiava, a mão no punho de uma faca curta. Não eram soldados famintos. Eram homens que sabiam onde entrar.

Ysaac não correu para chamar ajuda.

Ajuda levaria tempo. Tempo fazia barulho.

Moveu-se.

A chuva cobriu seus passos. A lama engoliu o som. Ele contornou a pilha de barris, aproximando-se por trás do vigia. O homem cheirava a nervosismo e alho velho.

Ysaac esperou o momento em que o olhar dele se voltou para o companheiro.

Um passo.

Outro.

A mão encontrou a pedra solta junto ao chão — pesada, fria, suficiente.

O golpe foi rápido.

O homem caiu sem gritar.

O segundo se virou tarde demais. A faca brilhou sob a chuva. Ysaac não recuou. Avançou para dentro do movimento, desviando do braço armado, o corpo leve como se conhecesse aquele gesto antes de ele acontecer.

O impacto foi breve. Próximo. Inevitável.

Quando o homem caiu, a chuva lavou o sangue antes que ele tivesse nome.

Ysaac ficou imóvel por um instante, o peito subindo e descendo, não em pânico, mas em ajuste. O mundo não mudara. A chuva continuava. Os cavalos respiravam. A muralha permanecia.

Ele olhou para as próprias mãos.

Não tremiam.

Guardas chegaram minutos depois, alertados pelo cavalo inquieto. Encontraram dois corpos e o menino encostado à parede, encharcado, o olhar distante como se estivesse escutando algo além da chuva.

Eitor veio logo atrás.

Observou a cena. Os corpos. A porta intacta. O garoto vivo.

— Você ouviu — disse.

Ysaac assentiu.

O comandante segurou o olhar dele por um momento longo demais para ser apenas avaliação. Havia ali reconhecimento… e o peso de uma verdade que nenhum dos dois disse em voz alta.

Naquela noite, Ysaac deixou de ser apenas o menino do estábulo.

Tornou-se o que o castelo precisava.

Silêncio que protege.

Presença que chega antes do perigo.

E a guerra, que o fizera órfão, encontrou nele um novo propósito.

A notícia espalhou-se antes do amanhecer.

Não em anúncios oficiais, nem em relatórios formais. Espalhou-se como o fazem as verdades desconfortáveis: em sussurros nas cozinhas, em olhares trocados nos pátios, em histórias murmuradas junto às fogueiras.

Dois homens mortos.

Nenhum alarme.

O menino do estábulo vivo.

Alguns disseram que ele tivera sorte. Outros, que os invasores eram inexperientes. Mas os soldados que viram os corpos de perto não riram. Havia precisão demais nos ferimentos, silêncio demais na cena, ausência demais de luta.

— Ele chegou antes — murmurou um deles.

A frase se repetiu.

Chegou antes.

Ysaac não ouviu os comentários. Ouviu apenas o que sempre ouvira: passos fora do ritmo, respirações alteradas, o ranger de uma porta mal fechada. A vida no castelo continuava, e ele continuava dentro dela, invisível o suficiente para observar, necessário demais para ser ignorado.

Eitor não fez cerimônia.

Na manhã seguinte, entregou-lhe um par de botas.

Não eram novas. O couro trazia marcas de uso, cicatrizes de campanhas passadas. Ainda assim, estavam inteiras. Firmes. Silenciosas.

— A terra está fria demais para pés descalços — disse o comandante.

Ysaac recebeu as botas como quem recebe uma espada.

Não por vaidade.

Por confiança.

A partir daquele dia, passou a acompanhar rondas noturnas. Não como soldado, ainda. Como presença. Caminhava alguns passos atrás, observando, aprendendo a mapear o castelo não apenas pelo espaço, mas pelo comportamento humano.

Descobriu que guardas cansados pisam mais forte.

Que mentirosos evitam luz.

Que culpados falam demais.

Descobriu que o perigo raramente anuncia sua chegada.

E quando anuncia, já é tarde.

Pequenos episódios começaram a se acumular.

Uma faca desaparecida encontrada antes que fosse usada.

Um servo impedido de envenenar vinho que nunca chegou à mesa.

Um portão lateral trancado minutos antes de uma tentativa de invasão.

Nenhum desses eventos gerou proclamações.

Mas todos tinham um elemento em comum: Ysaac estava presente.

Os soldados começaram a ajustar o comportamento quando ele se aproximava. Conversas cessavam. Mãos saíam do cabo das armas. Ombros endireitavam. Não por medo declarado, mas por uma sensação incômoda de estar sendo visto por inteiro.

— O menino escuta — disseram alguns.

— O menino vê — corrigiram outros.

E houve quem acrescentasse, em voz baixa:

— O menino sabe.

Ysaac não buscava reputação.

Reputação faz barulho.

Ele buscava padrões. Falhas. Variações.

O castelo era um organismo vivo, e ele aprendia a reconhecer quando algo adoecia.

Certa tarde, um grupo de soldados tentou provocar reação. Um deles esbarrou de propósito em seu ombro, derramando água no chão.

Ysaac apenas recuou meio passo, desviando do líquido antes que tocasse suas botas.

O homem riu, mas o riso morreu rápido.

Não havia raiva no olhar do garoto.

Não havia desafio.

Havia cálculo.

O tipo de olhar que mede distâncias, avalia tempo de reação e escolhe o ponto exato onde uma luta terminaria antes de começar.

O soldado nunca mais esbarrou nele.

Com o tempo, os apelidos começaram a surgir.

O Negro.

O Sério.

O Invicto.

Nomes que tentavam explicar o inexplicável.

Nenhum deles o definia.

Porque Ysaac não lutava para vencer.

Lutava para que não houvesse luta.

E, quando falhava, terminava o conflito rápido demais para que alguém chamasse aquilo de batalha.

Ysaac aprendeu cedo que vínculos são perigosos.

Vínculos criam pontos fracos. Nomes que podem ser chamados. Rostos que podem ser perdidos. Ainda assim, o castelo insistia em lhe oferecer aquilo que a guerra havia tomado: permanência.

Eitor foi o primeiro a lhe oferecer isso, sem jamais chamar pelo nome.

O comandante não ensinava com discursos. Ensinava com rotina. Caminhava ao lado, nunca à frente. Observava sem invadir. Corrigia sem humilhar. Havia uma firmeza em seus gestos que transformava disciplina em abrigo.

— Não lute para provar — disse certa vez, enquanto verificavam ferraduras ao entardecer. — Lute para voltar.

Ysaac guardou a frase como quem guarda uma lâmina bem afiada.

Os anos passaram, e o menino do estábulo tornou-se presença constante nas rondas. Primeiro alguns passos atrás. Depois ao lado. Por fim, à frente, não por ordem, mas por antecipação.

Eitor nada anunciava. Apenas observava.

Foi durante o reinado de Rômulo, em um inverno marcado por campanhas constantes, que o comandante colocou uma espada nas mãos de Ysaac.

Não era ornamentada. Não trazia brasões. O aço era simples, equilibrado, honesto.

— Peso suficiente para lembrar que cada golpe tem consequência — disse Eitor.

Ysaac testou o equilíbrio. Não sorriu. Não agradeceu. Assentiu.

Naquela estação, Heleno precisava de homens que chegassem antes da guerra, não depois dela. Rômulo, rei nesta época, compreendia isso melhor do que qualquer conselheiro.

A nomeação ocorreu ao amanhecer, no pátio interno ainda coberto de névoa.

Não houve trombetas.

Não houve corte.

Apenas o rei guerreiro, o comandante e o aço tocando seus ombros.

— Levante-se — disse Rômulo. — Cavaleiro de Heleno.

Ysaac levantou.

Nada mudou em sua postura. Nada mudou em seu silêncio.

Mas o reino passou a vê-lo de outra forma.

Não como o órfão.

Não como o menino.

Como o homem que chegava antes do perigo.

Anos depois, sob o reinado de Augusto, o castelo já não era um campo de campanhas, mas um organismo que precisava permanecer íntegro.

Augusto compreendia o valor de homens que não buscavam glória. Homens que não exigiam reconhecimento. Homens que permaneciam.

Chamou Ysaac ao pátio superior numa tarde sem vento.

— Você protege sem ser visto — disse o rei.

Ysaac permaneceu em silêncio.

— Bom — continuou Augusto. — O reino precisa de mais homens invisíveis e menos heróis barulhentos.

Não houve elogio. Houve confiança.

A partir daquele encontro, Ysaac passou a receber ordens diretamente do trono. Não como favorito. Como ferramenta precisa.

Rômulo lhe dera a espada.

Eitor lhe dera o lugar.

Augusto lhe deu direção.

Pela primeira vez desde a guerra, Ysaac compreendeu que permanecer não era apenas sobreviver.

Era servir à continuidade de um reino que mudava de reis, mas nunca podia se permitir cair.

Ysaac aprendeu cedo que vínculos são perigosos.

Vínculos criam pontos fracos. Nomes que podem ser chamados. Rostos que podem ser perdidos. Ainda assim, o castelo insistia em lhe oferecer aquilo que a guerra havia tomado: permanência.

Eitor foi o primeiro a lhe oferecer isso, sem jamais chamar pelo nome.

O comandante não ensinava com discursos. Ensinava com rotina. Caminhava ao lado, nunca à frente. Observava sem invadir. Corrigia sem humilhar. Havia uma firmeza em seus gestos que transformava disciplina em abrigo.

— Não lute para provar — disse certa vez, enquanto verificavam ferraduras ao entardecer. — Lute para voltar.

Ysaac guardou a frase como quem guarda uma lâmina bem afiada.

Os anos passaram, e o menino do estábulo tornou-se presença constante nas rondas. Primeiro alguns passos atrás. Depois ao lado. Por fim, à frente, não por ordem, mas por antecipação.

Eitor nada anunciava. Apenas observava.

Foi durante o reinado de Rômulo, em um inverno marcado por campanhas constantes, que o comandante colocou uma espada nas mãos de Ysaac.

Não era ornamentada. Não trazia brasões. O aço era simples, equilibrado, honesto.

— Peso suficiente para lembrar que cada golpe tem consequência — disse Eitor.

Ysaac testou o equilíbrio. Não sorriu. Não agradeceu. Assentiu.

Naquela estação, Heleno precisava de homens que chegassem antes da guerra, não depois dela. Rômulo compreendia isso melhor do que qualquer conselheiro.

A nomeação ocorreu ao amanhecer, no pátio interno ainda coberto de névoa.

Não houve trombetas.

Não houve corte.

Apenas o rei guerreiro, o comandante e o aço tocando seus ombros.

— Levante-se — disse Rômulo. — Cavaleiro de Heleno.

Ysaac levantou.

Nada mudou em sua postura. Nada mudou em seu silêncio.

Mas o reino passou a vê-lo de outra forma.

Não como o órfão.

Não como o menino.

Como o homem que chegava antes do perigo.

Entre os poucos que observaram a cerimônia estava o príncipe Augusto.

Ainda jovem, sem coroa e sem o peso do trono, ele assistiu em silêncio, atento não ao ritual, mas ao homem que se erguia sem orgulho e sem temor.

Dias depois, encontrou Ysaac no pátio inferior, ajustando o arreio de um cavalo inquieto.

— Dizem que você chega antes do perigo — disse o príncipe.

Ysaac permaneceu em silêncio.

Augusto não interpretou o silêncio como desrespeito. Interpretou como precisão.

— Homens assim mantêm reinos de pé — acrescentou.

Não houve elogio. Houve reconhecimento.

A partir daquele encontro, o príncipe passou a observá-lo sempre que seus caminhos se cruzavam. Não como curiosidade, mas como quem identifica uma peça essencial em um mecanismo maior.

Rômulo lhe dera a espada.

Eitor lhe dera o lugar.

E, mesmo antes da coroa, Augusto já compreendia o valor de sua permanência.

Pela primeira vez desde a guerra, Ysaac percebeu que sobreviver não era suficiente.

Era preciso permanecer.

E permanecer, naquele reino, significava proteger aquilo que ainda não havia sido coroado.

O inverno trouxe silêncio, mas não paz.

Eitor permanecia no comando, mesmo depois da última guerra ter-lhe tomado as pernas. O cavalo caíra sobre elas no retorno da campanha. A lâmina salvara-lhe a vida, e ele exigira apenas uma cadeira mais alta e acesso às muralhas.

O castelo não o viu cair.

Viu-o adaptar-se.

Ysaac assumiu as rondas mais longas e os postos mais vulneráveis. Não por ordem. Por continuidade. O comando mudara de forma, não de essência.

Foi nesse período que Rômulo convocou vinte homens para uma travessia noturna que não constaria em registros oficiais.

Entre eles, Ysaac Ventro, .

A Baía das Asas recebeu sombras em silêncio. Três navios Mar’Jin flutuavam ancorados, confiantes na distância e na escuridão. Quando o sol nasceu, carregavam apenas corpos.

O nome surgiu ali, não como proclamação, mas como sussurro entre sobreviventes e soldados que testemunharam o impossível.

Fantasma.

O homem que chegava sem ser visto.

O homem que lutava como se já estivesse morto.

O nome seguiu com eles de volta a Heleno e, no castelo, espalhou-se como constatação inevitável.

Dias depois, no pátio interno, Eitor chamou Ysaac.

A cadeira rangia sobre a pedra, mas sua voz permanecia firme.

— O comando exige alguém que chegue antes do perigo — disse.

A espada do comandante foi colocada nas mãos de Ysaac.

Agora o órfão de guerra era comandante da Guarda de Pessoal do Rei.

Não houve aplausos.

Apenas aceitação.

Na mesma estação, a febre levou Rômulo.

O rei guerreiro partiu rápido, como vivera, e o reino não teve tempo para luto prolongado. A coroa encontrou Augusto, ainda jovem, filho mais velho de Rômulo.

Augusto compreendeu o que herdava: um trono sustentado por homens que não buscavam ser vistos.

Ao encontrar Ysaac na muralha leste, disse apenas:

— Reinos sobrevivem graças ao que não se vê.

Ysaac inclinou a cabeça.

Rômulo lhe dera a guerra.

Eitor lhe dera o comando.

Augusto lhe dava um reino para manter de pé.

E o Fantasma passou a proteger não um rei, mas a continuidade de todos eles.

O cheiro do sal não estava mais ali.

A memória da baía dissolveu-se como névoa ao sol, e Ysaac voltou ao pátio de pedra de Heleno, onde o ar trazia apenas poeira, couro e a inquietação que ninguém nomeava.

Eduardo afastava-se ao lado de Selina.

O futuro do reino caminhava sem perceber o peso que o cercava.

Ysaac respirou fundo, como um cão que fareja o vento antes da tempestade.

Nada parecia fora do lugar.

O tilintar das correntes da ponte.

O arrastar distante de uma lança contra a muralha.

O cheiro comum de homens que não sabem que estão prestes a temer.

Ainda assim, algo resistia à ordem natural das coisas.

Elise.

Sua presença iluminava o pátio como se o sol tivesse escolhido um único ponto para nascer. Mas não era a luz que prendia a atenção de Ysaac.

Era o movimento ao redor dela.

Olhares que demoravam meio segundo além do necessário.

Silêncios que se formavam onde antes havia riso.

Um mensageiro que desviou o caminho para não cruzar seu trajeto.

O Fantasma não acreditava em coincidências.

O passado ensinara que o perigo raramente anuncia sua chegada.

Ele apenas muda o ritmo do mundo.

Ysaac ajustou a posição junto à muralha, sem chamar atenção, sem interromper o fluxo da vida ao redor.

Permanecer era sua função.

Observar era sua arma.

E, enquanto o futuro rei desaparecia pelos corredores ao lado da mulher que o mundo chamava de mãe, o Fantasma compreendeu que o silêncio daquela manhã não era paz.

Era prenúncio.

E, pela primeira vez em muitos invernos, o reino inteiro pareceu prender a respiração.