CAPÍTULO 8 — Velhas Alianças
A manhã em Heleno nascera fria, como quase todas nascidas entre aquelas muralhas de pedra branca. O vento descia das colinas e percorria o pátio interno do castelo como um mensageiro impaciente, sacudindo estandartes, levantando poeira leve entre as pedras e fazendo tilintar as ferragens das armaduras dos guardas. Soldados já ocupavam suas posições muito antes do sol alcançar o topo das torres. A notícia correra pelo castelo ainda antes da primeira refeição: a grande comitiva de Thalen estava próxima.
Não era uma visita qualquer. Todos sabiam disso.
Desde a morte de Augusto, cada movimento entre os reinos era observado com mais cuidado do que antes. E agora, às vésperas do casamento entre Eduardo e Elise de Thalen, a chegada da delegação completa do reino dos campos dourados carregava peso político suficiente para fazer o próprio castelo parecer atento.
No portão principal, três figuras aguardavam.
Cássian dos Ventos permanecia alguns passos à frente, elegante como sempre. O emissário dos Elar vestia um manto longo de tecido leve que reagia ao vento como se tivesse vontade própria. As pequenas penas presas às tranças escuras balançavam com suavidade, e seus olhos percorriam o caminho que levava ao castelo com curiosidade silenciosa. Para ele, cada chegada humana era uma pequena peça em um jogo muito maior.
Ao lado dele, imóvel como uma estátua esculpida na própria muralha, estava Ysaac.
Mesmo entre homens armados e cavaleiros experientes, a presença dele alterava o ambiente. Os guardas mantinham a postura um pouco mais rígida, os soldados falavam um pouco mais baixo. Não por medo aberto, mas por respeito. A fama de Ysaac atravessara fronteiras. Cássian já ouvira o suficiente para entender por quê.
O som chegou primeiro.
Rodas pesadas sobre pedra.
Cascos de cavalos.
O bater rítmico de arreios e armaduras.
Pouco depois, os estandartes de Thalen surgiram na curva da estrada. O pano dourado tremulava sob o vento da manhã, exibindo o símbolo familiar dos campos e das vinhas. Atrás dele, cavaleiros avançavam em formação ordenada, seguidos por carroças carregadas com baús, barris e presentes diplomáticos.
A comitiva era grande o suficiente para transformar o pátio diante do portão em um pequeno mar de movimento.
Cássian observava tudo com interesse genuíno.
Humanos sempre transformavam política em espetáculo.
Quando os primeiros cavaleiros atravessaram o portão, o som dos passos ecoou pelas paredes do castelo. Soldados de Heleno mantiveram suas lanças firmes, abrindo espaço enquanto a comitiva avançava para o interior do pátio.
Entre os cavaleiros, uma carruagem mais pesada chamou a atenção.
Não pela riqueza — embora fosse bem trabalhada — mas pelo respeito que os homens ao redor demonstravam a ela.
A porta se abriu.
O primeiro homem a descer foi Helder de Thalen.
Senhor dos campos dourados, governante paciente e aliado antigo de Augusto. A idade já marcava seu rosto, mas não diminuía a firmeza da postura. Helder desceu da carruagem com calma estudada, os olhos percorrendo o pátio, avaliando cada detalhe do castelo que agora receberia sua filha como futura rainha.
Por um instante, o pátio pareceu aquietar-se.
Cássian deu um passo à frente.
— Helder de Thalen — disse ele, com uma inclinação elegante da cabeça. — Heleno recebe sua chegada com honra.
Helder observou o emissário por um breve momento, como quem mede o peso de um homem antes de responder.
— Cássian dos Ventos — respondeu. — Ouvi dizer que os Elar agora preferem assistir às tempestades mais de perto.
Um leve sorriso tocou os lábios de Cássian.
— Ventos altos oferecem boas perspectivas.
Antes que qualquer outro cumprimento pudesse acontecer, a carruagem se moveu novamente.
Outro homem surgiu na porta.
Dois soldados de Thalen aproximaram-se imediatamente. Com cuidado treinado, ajudaram-no a sair da carruagem e o acomodaram em uma cadeira com rodas de madeira escura, reforçada por ferragens nas bordas.
Brennar.
Antigo comandante da guarda de Augusto.
Pai de Felipe e Noel.
Muitos anos antes, uma queda violenta durante uma campanha esmagara suas pernas. A amputação salvara sua vida, mas encerrara sua carreira nos campos de batalha.
Ainda assim, quando a cadeira foi empurrada para a frente, os homens ao redor abriram espaço instintivamente.
Mesmo sem as pernas, Brennar continuava sendo um homem diante do qual soldados endireitavam a postura.
Cássian foi o primeiro a notar o que aconteceu a seguir.
Ysaac avançou um passo.
A postura dele não mudou. O Fantasma permaneceu tão rígido quanto antes, os olhos escuros fixos no veterano.
— Comandante Brennar — disse ele.
Brennar o observou por um momento inteiro.
Depois bufou, como se aquela formalidade o divertisse mais do que deveria.
— Baixe a guarda e me dê um abraço, soldado.
Houve um breve instante de silêncio.
Ysaac hesitou apenas o suficiente para mostrar que ainda era disciplinado.
Então obedeceu.
O abraço foi curto.
Seco.
Dois homens que haviam sobrevivido à mesma guerra, reconhecendo-se sem precisar de palavras.
No segundo seguinte, Ysaac já havia retornado à postura rígida.
Brennar o examinou de cima a baixo, como um comandante avaliando um soldado após muitos anos.
— Está envelhecendo bem… para um órfão de guerra.
Ysaac respondeu com a mesma simplicidade de sempre.
— Comandante.
O pátio ainda estava envolto no murmúrio da chegada quando o grande portão interno do castelo se abriu.
Do interior das muralhas surgiram os membros da família real e da corte mais próxima. Guardas se alinharam instintivamente, abrindo espaço enquanto a pequena procissão avançava em direção à comitiva de Thalen.
À frente caminhava Eduardo.
O herdeiro de Heleno mantinha a postura firme que aprendera desde criança, mas havia uma tensão quase invisível em seus ombros. Os olhos, atentos, percorriam o pátio — a comitiva, os soldados, Helder, Brennar — como se tentassem absorver tudo ao mesmo tempo.
Ao lado dele estava Selina.
A rainha movia-se com a elegância calma de quem conhecia cada pedra daquele castelo e cada olhar que recaía sobre ela. O rosto sereno não revelava emoção alguma além da cortesia apropriada para uma ocasião diplomática.
Alguns passos atrás vinham Elise e Seraphine de Thalen.
Seraphine mantinha a compostura perfeita de uma dama acostumada às formalidades da corte. O olhar observava o pátio com curiosidade controlada, registrando cada detalhe da chegada.
Elise, porém, já não observava mais nada.
Seus olhos estavam fixos apenas em uma figura.
Helder de Thalen.
Por um instante, ela permaneceu parada, como se o mundo tivesse se reduzido àquele ponto do pátio. As semanas passadas em Heleno haviam sido longas, cheias de cerimônias, conversas e expectativas políticas. Ainda assim, naquele momento, tudo isso parecia distante.
Era apenas seu pai.
Helder também a viu.
A rigidez diplomática que marcava sua postura suavizou-se quase imperceptivelmente. Não o suficiente para quebrar o decoro diante da corte de Heleno — mas o bastante para que qualquer pai reconhecesse a própria filha.
O protocolo exigia que Elise permanecesse onde estava.
O protocolo exigia que Helder fosse conduzido formalmente até a família real.
O protocolo exigia muitas coisas.
Elise ignorou todas.
Antes que qualquer conselheiro ou mestre de cerimônias pudesse reagir, ela já havia se movido.
O vestido claro atravessou o pátio entre soldados, cavaleiros e estandartes como uma rajada inesperada de vento.
— Elise — murmurou alguém na fileira da corte.
Mas ela já estava longe demais para ouvir.
Helder observou a filha aproximar-se com uma mistura de surpresa e resignação quase divertida. Por um breve momento, pareceu considerar repreendê-la. Mas a ideia morreu antes mesmo de nascer.
Elise chegou até ele quase sem fôlego.
— Pai.
A palavra saiu simples, sem cerimônia.
Helder abriu os braços.
O abraço foi firme e sincero, carregado de semanas de distância e de uma familiaridade que nenhum protocolo conseguiria substituir.
Ao redor deles, o pátio ficou em silêncio respeitoso.
Mesmo os soldados mais jovens entendiam quando era hora de fingir que não estavam vendo.
Brennar, sentado em sua cadeira com rodas, observava a cena com um leve brilho de aprovação nos olhos cansados.
— Ainda a mesma garota — murmurou ele, mais para si do que para qualquer outra pessoa.
Cássian também observava.
Para um povo antigo como os Elar, a política humana frequentemente parecia um teatro cheio de máscaras. Mas momentos como aquele — breves, indisciplinados, impossíveis de encenar — lembravam-lhe que as máscaras às vezes caíam.
Ysaac permaneceu imóvel.
Mas seus olhos acompanharam cada detalhe.
O Fantasma observava sempre.
Quando Elise finalmente se afastou do abraço, Helder segurou seus ombros por um instante, examinando o rosto da filha como se confirmasse algo importante.
— Heleno está cuidando bem de você? — perguntou ele.
Elise sorriu.
— Estou inteira. Acho que isso já conta como sucesso.
Helder soltou um breve riso baixo.
Atrás deles, Selina observava a cena com expressão tranquila.
Os olhos da rainha, contudo, avaliavam muito mais do que o reencontro de pai e filha.
Ela observava Helder.
Observava Brennar.
Observava cada reação da corte de Heleno.
E, acima de tudo, observava Elise.
O reencontro entre pai e filha terminou lentamente, como se nenhum dos dois tivesse pressa em devolvê‑lo ao mundo ao redor.
Mas o mundo ao redor estava esperando.
Helder soltou os ombros de Elise e voltou-se para a pequena comitiva que aguardava alguns passos atrás. A formalidade retornou ao seu rosto como uma armadura familiar.
Eduardo foi o primeiro a aproximar-se.
O herdeiro de Heleno inclinou a cabeça com respeito controlado, a postura rígida de quem conhecia bem o peso daquele momento.
— Senhor de Thalen — disse ele.
Helder respondeu com a mesma medida de cortesia.
— Príncipe Eduardo.
Os dois homens se estudaram por um breve instante. Não havia hostilidade ali, mas também não havia intimidade. Apenas o reconhecimento silencioso de que o destino de dois reinos estava, agora, ligado por algo maior que ambos.
Eduardo estendeu a mão.
Helder apertou-a com firmeza.
— Heleno o recebe com honra — continuou Eduardo.
— Thalen sempre respondeu bem à hospitalidade de Heleno — replicou Helder.
A frase soou simples, mas o tom carregava décadas de alianças, promessas e campanhas lutadas lado a lado sob o comando de Augusto.
Ao lado de Eduardo, Selina aguardava.
Quando Helder voltou-se para ela, a rainha inclinou a cabeça com elegância impecável.
— Helder de Thalen — disse ela com suavidade. — Faz muitos anos desde a última vez que estivemos no mesmo pátio.
— De fato, Majestade — respondeu Helder.
Um sorriso diplomático surgiu no rosto da rainha.
— Heleno sente falta de velhos aliados.
— E Thalen lembra bem de velhas promessas — respondeu Helder.
A troca de palavras permaneceu cordial, mas havia peso suficiente entre elas para fazer alguns conselheiros trocarem olhares discretos.
Um pouco atrás, Seraphine de Thalen aproximou-se.
— Helder.
O nome foi dito com a familiaridade de alguém que não precisava de protocolo.
Helder virou-se imediatamente, e o sorriso que surgiu desta vez foi genuíno.
— Seraphine.
Os dois se abraçaram brevemente.
— Ainda representando Thalen entre esses muros? — perguntou ele.
— Alguém precisa lembrar Heleno de que o mundo não termina nestas muralhas — respondeu ela.
Helder soltou um breve riso baixo.
— Então a tarefa continua difícil.
Enquanto as apresentações seguiam, Cássian observava tudo com interesse silencioso.
Os olhos do emissário dos Elar percorriam o pequeno círculo de poder reunido no pátio: Helder, Selina, Eduardo, Seraphine, Brennar.
Por um breve instante, os olhos dele encontraram os de Selina.
A troca durou pouco mais que um sopro.
Um sorriso discreto apareceu no canto da boca de Cássian.
Selina respondeu com uma inclinação quase imperceptível da cabeça.
A conversa continuou como se nada tivesse acontecido.
Soldados moviam-se.
Conselheiros cochichavam.
Estandartes agitavam-se ao vento.
Ninguém pareceu notar.
Exceto Ysaac.
O Fantasma permaneceu imóvel ao lado do portão.
Seus olhos passaram brevemente por Cássian, depois por Selina.
Apenas um instante.
Depois voltaram a observar o pátio.
A conversa no pátio ainda seguia entre formalidades e lembranças antigas quando um pequeno movimento ocorreu entre os soldados posicionados próximos ao portão.
Até então ele estivera ali, misturado à fileira de armaduras e lanças, observando como fazia sempre.
Entre soldados.
Era o lugar onde Darel mais gostava de estar.
Não no centro das cerimônias, nem entre conselheiros de voz baixa e sorrisos calculados, mas entre homens acostumados ao peso do aço e da poeira das estradas.
Darel avançou alguns passos para fora da linha.
Alguns guardas endireitaram discretamente a postura quando perceberam quem se aproximava. Outros apenas abriram espaço, como faziam naturalmente quando ele caminhava entre eles.
O príncipe de Heleno aproximou-se com calma, o olhar atento percorrendo primeiro Helder, depois a cadeira de rodas onde Brennar estava sentado.
Helder foi o primeiro a notá‑lo.
Por um breve instante, a expressão do senhor de Thalen pareceu avaliar o homem que se aproximava. O reconhecimento veio logo em seguida.
— Príncipe Darel — disse ele.
Darel inclinou a cabeça com respeito.
— Senhor de Thalen. Heleno se alegra em recebê‑lo.
A saudação foi simples, mas firme. Não havia exagero na cortesia, apenas a cordialidade direta de um homem acostumado a falar com soldados tanto quanto com nobres.
Helder respondeu com um leve gesto afirmativo.
— Ouvi dizer que o segundo filho de Augusto prefere as companhias das muralhas às dos salões.
Um leve sorriso apareceu no rosto de Darel.
— As muralhas costumam dizer a verdade com mais clareza.
Alguns soldados próximos esconderam discretamente a satisfação atrás da rigidez da postura.
Depois Darel voltou sua atenção para Brennar.
Por um momento, a expressão dele suavizou-se.
— Comandante Brennar.
Brennar levantou o olhar.
O velho comandante observou o jovem príncipe como quem mede a firmeza de uma lâmina antes de aceitá‑la no campo de batalha.
— Soube que anda causando boa impressão entre os soldados de Heleno.
— Tento apenas não envergonhar o nome de meu pai — respondeu Darel.
Brennar soltou um breve resmungo de aprovação.
— Augusto teria gostado disso.
Darel inclinou ligeiramente a cabeça.
— Espero continuar merecendo essa comparação.
Por um instante, o pátio pareceu unir duas gerações separadas pela guerra e pelo tempo.
Brennar, moldado pelos campos de batalha.
Darel, ainda construindo o próprio nome entre os mesmos homens.
Ao lado do portão, o Fantasma permanecia exatamente onde sempre estivera.
Entre a corte… e os soldados.
A breve pausa no pátio terminou quando Eduardo voltou a assumir a voz da cerimônia.
— Heleno preparou mesa e abrigo para nossos aliados de Thalen — disse ele, com cordialidade firme. — Entremos.
A sugestão foi recebida com acenos discretos. O movimento começou quase imediatamente.
Helder inclinou a cabeça em concordância, enquanto os membros da corte se reorganizavam naturalmente para seguir em direção às portas do castelo.
Foi então que Darel se aproximou.
Sem dizer nada, ele tomou o lugar do servo que empurrava a cadeira de Brennar.
O gesto foi simples, quase casual, mas alguns soldados perceberam e trocaram olhares discretos entre si.
Brennar lançou um olhar lateral para o príncipe.
— Cuidado, rapaz — murmurou ele. — Essa cadeira já sobreviveu a três campanhas.
Um leve sorriso surgiu no rosto de Darel.
— Então ela deve conhecer bem o caminho.
A cadeira começou a mover-se lentamente em direção às portas do castelo, conduzida agora pelas mãos do príncipe.
Um pouco atrás deles, Selina estendeu a mão.
— Venha, Elise.
A jovem de Thalen aceitou o gesto sem hesitar. Os dedos se entrelaçaram por um instante antes de seguirem juntas pelo pátio.
Para quem observasse de longe, parecia apenas um gesto de gentileza entre rainha e futura nora.
Mas havia algo no modo como Selina conduzia o passo que lembrava mais uma guia segura do que uma simples companhia.
As portas do castelo começaram a receber a pequena procissão.
Guardas abriram espaço, servos se moveram com rapidez silenciosa, e os estandartes tremularam quando o vento atravessou o pátio pela última vez.
Nem todos, porém, estavam no pátio.
De uma das janelas altas da muralha interna, um homem observava.
Marcellus.
Alto e bem constituído, apoiava uma das mãos na pedra da janela com a tranquilidade de quem assistia a algo que já compreendia. Os cabelos negros estavam presos atrás da cabeça, deixando o rosto anguloso à meia-luz. Seus olhos escuros percorriam o pátio com atenção paciente.
Havia nele a calma de um caçador que não tem pressa.
Ele observava Selina.
Observava Elise.
Observava cada passo da pequena procissão que atravessava o pátio.
Sabia mais do que devia.
Um a um, os convidados começaram a entrar.
Darel conduziu Brennar através do grande portal.
Helder seguiu logo atrás.
Eduardo entrou ao lado de Seraphine.
Selina conduziu Elise para dentro do castelo.
Por um momento, o pátio começou a esvaziar-se.
Cássian foi o último a permanecer junto às portas.
O emissário dos Povos Alado de Elar parou antes de atravessar o portal.
Lentamente, levantou os olhos.
Na janela acima, Marcellus ainda observava.
Os olhares dos dois se encontraram.
Não houve surpresa.
Nem gesto.
Apenas reconhecimento.
Um instante depois, Cássian entrou no castelo.