CAPÍTULO 9 — A Véspera

O castelo de Heleno parecia respirar mais fundo naquela tarde. Servos atravessavam os corredores carregando flores, bandejas de prata e tecidos recém-passados, enquanto escadas rangiam sob o peso de homens que penduravam bandeiras nas paredes altas do Corredor Branco.

O brasão de Heleno — uma pedra negra simples coroada por ouro — surgia nos estandartes recém-desdobrados, contrastando contra o fundo claro do tecido. Ao lado dele, as cores de Thalen eram fixadas com o mesmo cuidado, como se os dois reinos já compartilhassem aquele espaço antes mesmo do primeiro voto ser pronunciado.

No pátio interno, caixas eram abertas e fechadas com pressa, revelando velas longas, toalhas bordadas e talheres que brilhavam como pequenas lâminas sob a luz do fim de tarde. O cheiro da cozinha avançava pelos corredores em ondas quentes: pão recém-assado, ervas esmagadas e carne sendo lentamente preparada para o jantar que receberia convidados de todos os cantos do reino.

Amanhã seria o casamento.

A frase parecia existir em cada canto do castelo. Estava nas conversas rápidas entre criadas, nos passos apressados dos mordomos, na paciência cuidadosa com que os músicos afinavam seus instrumentos no salão. Nada ali era exatamente festa, mas tudo carregava a expectativa de algo que estava prestes a começar.

Alguns soldados observavam o movimento com curiosidade discreta. Não estavam acostumados a ver o castelo tão cheio de cor e movimento. Normalmente, Heleno vivia de pedra, silêncio e disciplina. Naquela tarde, porém, até mesmo o ar parecia mais leve, como se o próprio castelo aceitasse a ideia de um novo começo.

Nas escadarias próximas ao grande salão, duas servas discutiam em voz baixa a melhor posição para um arranjo de flores brancas que deveria adornar o caminho da cerimônia. Uma delas insistia que o sol da manhã bateria diretamente sobre o corredor e faria as pétalas parecerem douradas. A outra dizia que flores demais tirariam a atenção da noiva.

Nenhuma das duas percebeu que estavam, sem saber, descrevendo o mesmo sentimento que tomava todo o castelo: esperança.

Por uma única noite, Heleno parecia acreditar que o futuro poderia ser simples.

O sol já começava a descer quando Ysaac iniciou sua ronda. A luz do entardecer atravessava as janelas altas do castelo em faixas douradas que se quebravam sobre o piso branco, desenhando sombras longas entre colunas e tapeçarias.

Ele caminhava sem pressa aparente, mas cada passo era medido. Não era apenas um guarda percorrendo corredores. Era um homem acostumado a sobreviver em lugares onde a morte se escondia em detalhes pequenos demais para os outros notarem.

Passou primeiro pelo pátio interno. Dois soldados conversavam perto do poço enquanto um terceiro verificava a fivela da própria armadura. Ao vê-lo, endireitaram a postura imediatamente.

Ysaac não disse nada. Apenas observou.

Os olhos percorreram as muralhas, as escadas, os arcos que levavam aos corredores laterais. Registrou quantos homens estavam de guarda, quem parecia atento, quem parecia cansado. Nada fora do lugar. Ainda assim, ele gravou cada rosto na memória.

Seguiu então pela galeria que dava acesso às torres. O vento entrava por frestas estreitas, trazendo consigo o cheiro distante de madeira, fumaça e cidade. Heleno se estendia além das muralhas como um mar de telhados escuros e ruas apertadas.

Amanhã aquele mesmo castelo receberia o casamento do herdeiro.

O pensamento não o distraiu, mas pesou em algum lugar silencioso dentro dele. Grandes celebrações sempre traziam movimento demais. E movimento demais sempre criava pontos cegos.

No topo da escada norte, encontrou outro posto de guarda. Um rapaz jovem demais para parecer completamente confortável dentro da própria armadura mantinha os olhos fixos no horizonte.

Ysaac parou ao lado dele por alguns instantes.

O soldado tentou parecer imóvel como uma estátua.

— Vento vindo do sul — disse Ysaac, por fim.

O rapaz assentiu rapidamente.

— Sim, senhor.

Ysaac apoiou as mãos no parapeito de pedra e observou a cidade abaixo. Carruagens chegavam aos poucos pelos caminhos que levavam ao portão principal. Nobres, emissários, comerciantes importantes. Todos vinham para presenciar o casamento.

O castelo estava cheio.

Cheio demais.

Depois de alguns segundos, ele se afastou sem dizer mais nada e retomou a caminhada.

Desceu novamente para os corredores internos. Servos cruzavam seu caminho carregando bandejas, flores e jarros de vinho. Alguns inclinavam a cabeça ao passar. Outros simplesmente se apressavam ainda mais, como se o tempo estivesse correndo mais rápido naquela tarde.

Ysaac continuou registrando tudo.

Portas.

Passos.

Som de vozes.

Rangidos de madeira.

Nada parecia errado.

E talvez fosse exatamente isso que mais o incomodava.

Quando o sol começou a desaparecer atrás das torres ocidentais, Eduardo caminhava pelos corredores do castelo ao lado de Elise.

As janelas altas deixavam entrar os últimos fios de luz do entardecer, que se quebravam sobre o piso claro e subiam pelas paredes cobertas de tapeçarias antigas. Servos passavam apressados carregando bandejas e jarros, inclinando levemente a cabeça ao reconhecer o herdeiro.

Eduardo vinha em silêncio havia alguns minutos, os pensamentos presos em lugares que nem mesmo ele sabia explicar direito. O dia seguinte parecia grande demais para caber dentro de uma única noite.

Mas caminhar ao lado de Elise tornava o peso mais leve.

Não porque ela dissesse algo extraordinário. Na verdade, ela ainda não tinha dito nada. Ainda assim, a simples presença dela parecia reorganizar o mundo ao redor. As preocupações continuavam ali, mas deixavam de pressioná-lo como antes.

— O castelo parece diferente hoje — disse Elise, olhando ao redor.

Eduardo soltou um pequeno sorriso.

— Ele também parece diferente para mim.

Ao longe já era possível ouvir o som de vozes no grande salão, misturado ao tilintar de taças e ao murmúrio dos músicos afinando seus instrumentos.

— Está nervoso? — perguntou Elise.

Eduardo pensou por um instante antes de responder.

— Não exatamente com o casamento.

Elise ergueu uma sobrancelha, divertida.

— Isso é um começo promissor.

— É com o que vem depois — continuou ele. — Amanhã todos vão esperar que eu seja algo muito específico.

— E o que seria isso?

— Um homem que tenha todas as respostas.

Elise parou por um instante no corredor.

— E você não tem?

Eduardo riu baixo, pela primeira vez naquela tarde sem esforço.

— Tenho perguntas suficientes para encher uma biblioteca inteira.

Elise deu de ombros.

— Então talvez seja exatamente disso que Heleno precise.

Ele a observou por alguns segundos. Havia algo curioso na forma como ela falava. Elise não parecia impressionada com o castelo, com as paredes antigas ou com o peso da coroa que todos pareciam enxergar sobre os ombros dele. Com ela, Eduardo tinha a sensação rara de estar conversando simplesmente como um homem.

— Você fala como alguém que não tem medo do futuro.

— Tenho medo, sim — respondeu ela com tranquilidade. — Só não vejo utilidade em fingir que ele não vai chegar.

Eduardo assentiu. Percebeu então que estava mais tranquilo do que estivera durante todo o dia. Não era que os problemas tivessem desaparecido. Mas ao caminhar ao lado dela, o futuro parecia menos ameaçador e mais… possível.

Eles retomaram a caminhada.

Quando viraram o último corredor, as portas altas do salão de jantar já estavam abertas. A luz de dezenas de velas iluminava o interior, e o som das conversas se espalhava pelo corredor.

A véspera do casamento havia reunido boa parte do reino dentro daquele castelo.

Nobres conversavam em pequenos grupos, conselheiros discutiam em voz baixa e servos circulavam entre as mesas organizando taças e jarros de vinho.

Por uma noite, tudo parecia em ordem.

Selina já estava no salão quando Eduardo e Elise se aproximaram.

A rainha permanecia próxima à mesa principal, conversando com dois membros do Conselho. A luz das velas refletia nas pedras claras das paredes e nas taças de vinho alinhadas sobre a mesa longa, criando um brilho quente que suavizava o ambiente.

Como sempre, Selina parecia perfeitamente à vontade.

O vestido escuro caía com elegância sobre os ombros, e cada gesto seu era calculado o suficiente para parecer natural. Quando percebeu Eduardo atravessando o salão, ela interrompeu a conversa com um sorriso controlado.

— Meu filho — disse, inclinando levemente a cabeça.

Eduardo retribuiu o gesto com respeito. Não havia frieza no movimento, mas também não havia intimidade.

Os olhos de Selina então se voltaram para Elise.

Durante um breve instante, ela pareceu observá‑la com atenção silenciosa — não como quem encontra alguém pela primeira vez, mas como quem mede algo que já vinha avaliando há algum tempo.

Então sorriu.

— Vejo que Heleno já se acostumou à sua presença, Lady Elise.

Elise respondeu com uma pequena reverência.

— O castelo tem sido muito generoso comigo, Vossa Majestade.

Selina assentiu, como se aquilo confirmasse algo que ela já esperava.

— Alguns convidados chegaram hoje à tarde e já perguntavam por você. Parece que o reino inteiro decidiu aparecer para este casamento.

Ela fez um gesto leve indicando o salão ao redor.

Nobres conversavam em pequenos grupos, conselheiros trocavam comentários discretos e servos circulavam entre as mesas enchendo taças de vinho de Thalen. O ambiente estava cheio de vozes, mas nenhuma delas se elevava demais.

Era o tipo de ordem que só existia quando todos acreditavam que o futuro estava sob controle.

Selina voltou a olhar para Elise.

— Sua mãe ficaria orgulhosa de vê‑la aqui.

A frase foi dita com suavidade suficiente para parecer apenas uma gentileza diante da corte. Ainda assim, havia algo no tom que tornava as palavras mais pesadas do que aparentavam.

Elise manteve a compostura.

— Espero que sim.

Selina assentiu lentamente.

Por um momento, ela observou o salão inteiro — convidados, guardas, conselheiros, músicos.

Tudo parecia exatamente como deveria estar.

A véspera do casamento corria tranquila.

E a rainha de Heleno parecia absolutamente serena.

Em outro ponto do salão, Darel conversava com Marcellus.

Os dois estavam próximos a uma das colunas laterais, ligeiramente afastados do centro da sala, onde o barulho das conversas era mais intenso. Marcellus mantinha uma das mãos apoiada na mesa enquanto falava em tom baixo, como se discutisse algo que não precisava chegar aos ouvidos de mais ninguém.

Darel escutava com um sorriso relaxado, girando lentamente a taça de vinho entre os dedos.

— O castelo está cheio demais para o meu gosto — dizia Marcellus. — Metade desses homens veio para celebrar. A outra metade veio para observar.

Darel soltou uma pequena risada.

— Em Heleno, essas duas coisas costumam ser a mesma.

Marcellus ergueu levemente uma sobrancelha, como quem aprovava a resposta.

— Talvez você esteja aprendendo rápido demais.

Darel respondeu apenas com outro sorriso e levou a taça aos lábios.

Foi então que seus olhos se voltaram para o outro lado do salão.

Eduardo havia acabado de entrar acompanhado de Elise.

Por um instante, Darel os observou atravessando o salão entre os convidados.

Então ergueu a taça na direção do irmão, num gesto leve de saudação.

Eduardo percebeu o movimento.

Não houve palavras entre eles. Apenas um breve aceno de cabeça em resposta.

Para qualquer observador, era um gesto comum entre irmãos.

Darel voltou a atenção para Marcellus.

Ao redor deles, o jantar seguia normalmente.

Taças eram enchidas, vozes se cruzavam e a música tentava acompanhar o ritmo das conversas.

Brennar estava junto a uma das mesas laterais quando Selina se aproximou acompanhada por Helder de Thalen.

O velho comandante ergueu o olhar quando percebeu a presença da rainha e baixou a cabeça em cumprimento respeitoso.

Ao lado dele estava Noel, o filho mais velho. Alto como uma muralha e com apenas um braço, segurava uma taça de vinho com naturalidade.

Selina parou diante deles com a elegância calma que sempre carregava.

— Comandante Brennar — disse ela. — Faz tempo que não o vejo em meio às festividades do castelo.

Brennar respondeu com um leve sorriso cansado.

— Um casamento real merece algum esforço, Majestade.

Helder inclinou a cabeça em saudação.

— Heleno sabe organizar uma celebração digna.

Selina voltou-se para ele.

— Lorde Helder, espero que o castelo esteja tratando bem o senhor e sua comitiva.

— Muito bem, Majestade — respondeu Helder. — Thalen não esquecerá a hospitalidade de Heleno.

Noel observava em silêncio, atento à conversa. Quando Selina voltou os olhos para ele, ele apenas inclinou a cabeça com respeito.

— Seu filho continua impressionante, comandante — comentou a rainha.

Brennar lançou um olhar breve para Noel.

— A guerra cobra o que quer. Mas também ensina a permanecer de pé.

Noel deu um pequeno sorriso.

— Ou pelo menos a continuar lutando, Majestade.

Helder ergueu a taça lentamente.

— Se metade das alianças do reino fosse construída à mesa como esta, talvez tivéssemos visto menos guerras.

Selina levantou a própria taça.

— Então brindemos a algo melhor.

Helder acompanhou o gesto.

Noel também ergueu a taça.

— Ao futuro.

As taças se tocaram com um som leve.

Ao redor deles, o jantar continuava como se nada no mundo pudesse perturbá-lo.