Prólogo

O Corredor Branco sempre parecera eterno, como se o tempo tivesse medo de tocá-lo. As paredes de mármore puro, largas e altas como muralhas de gelo, carregavam séculos de história sem jamais permitir que a poeira ou o caos as marcassem. As veias minerais brilhavam sob a luz das tochas, como fissuras congeladas no próprio ar. Quadros gigantes, moldurados em ouro pálido, exibiam reis, guerras, alianças e traidores — todos imóveis, todos vigiando o silêncio com olhos pintados que pareciam vivos demais. No teto, afrescos antigos mostravam batalhas aéreas entre os Thalen, cidades consumidas por fogo azul. E sob tudo isso, o piso branco refletia a cena como se o mundo fosse duplo, um acima e outro abaixo.

Mas naquela noite não havia guardas. Não havia passos. Não havia respiração humana além de uma: a de Ysaac.

Ele avançava cambaleando, como se não fosse dono das próprias pernas. O corredor estava amplo, vazio demais, e o eco de sua presença soava errado, como se alguém tivesse arrancado o coração daquele lugar. O Fantasma, como era conhecido — o homem que nunca fora surpreendido, que lutava como se previsse o futuro — mancava, tocando a parede para não cair. A mão escorregava pelo mármore frio, deixando manchas irregulares de sangue. Um filete quente escorria pela nuca, pingando no chão e sendo engolido pelo brilho imaculado.

Ysaac jamais fora atingido sem perceber. Jamais. Desde criança, os sentidos dele eram lâminas afiadas demais para o mundo. Ele ouvia conversas distantes, sentia o cheiro da mentira, percebia alterações no vento em meio ao combate. Dizia-se que lutar com ele era enfrentar a própria morte.

Ainda assim, alguém o pegara de surpresa pela primeira vez.

Era impossível.

Inaceitável.

“Traição”, murmurou. A palavra escorreu amarga como fel entre os dentes.

O corredor parecia mais longo do que lembrava, esticando-se como um animal que recuava para atacar. Os quadros, que antes lhe traziam orgulho, agora pareciam zombar da sua fraqueza. Os rostos pintados dos antigos reis o seguiam com olhar morto e arrogante, como se dissessem: “Até o Fantasma sangra.”

A dor piorava. Não pela pancada, mas pela dúvida. Onde estavam os guardas? Por que nenhum sentinela bloqueava sua passagem? Nem mesmo em tempos de paz o Corredor Branco ficava vazio.

E naquela noite não era tempo de paz.

“Eu vou esfolar vivo cada homem que deixou seu posto”, rosnou, mas a ameaça saiu fraca, afogada na náusea que subia devagar.

A música da festa ainda vibrava em algum lugar da memória de Ysaac, distante e turva, como se viesse do fundo de um lago. Risos, o tilintar cristalino de taças brindando, o ritmo grave dos tambores marcando a celebração do herdeiro.

Por um instante ele acreditou ouvir tudo aquilo de verdade.

Então algo mudou.

Os tambores soaram mais pesados. Irregulares.

Como golpes de metal contra metal.

O tilintar das taças tornou-se estilhaço.

Os risos dissolveram-se em vozes ásperas, gritos que atravessavam corredores distantes do castelo.

Ysaac piscou com esforço, tentando limpar a visão.

Não era música.

Era luta.

O castelo estava despertando para a guerra.

Ele tentou regular a respiração. “Controle-se”, ordenou a si mesmo. Mas não houve controle.

O ar estava pesado, denso, e o corredor parecia respirar junto com ele, sugando o som dos seus passos à medida que avançava.

Quando olhou para o próprio reflexo no piso, viu-se pálido; mesmo sua pele negra parecia apagada, os olhos fundidos na sombra. E algo nele — algo que jamais temera homens, armas ou monstros — tremeu. A imagem parecia a de um garoto perdido nas histórias antigas, aqueles que acreditavam que fechar os olhos afastava criaturas da escuridão.

A porta da sala da Pedra estava logo à frente. Pequena, discreta, incrivelmente simples para guardar o maior pacto da história. Ysaac parou diante dela, respirando fundo, lutando contra o suor frio que escorria pela coluna.

Orava, não pelo reino, mas por si mesmo.

Que a porta estivesse trancada.

Que estivesse tudo no lugar.

Que o medo fosse apenas febre, delírio, qualquer coisa menos verdade.

Girou a maçaneta.

A porta abriu.

O ar dentro da sala era mais frio — um frio que não pertencia ao mundo dos vivos — e o choque o fez tropeçar. A chama das tochas tremeluzia com violência, como se fosse sacudida por mãos invisíveis.

E ali, no centro, o pedestal de pedra negra permanecia solitário.

Vazio.

O maior guerreiro do mundo caiu de joelhos. As mãos, sempre firmes, tremeram como as de um velho à beira do fim. O peito subia e descia com dificuldade, como se o ar estivesse se esgotando no mundo inteiro. Seu rosto, acostumado a enfrentar qualquer coisa, deformou-se em puro terror.

“A Pedra...” sussurrou, incapaz de erguer a voz.

“A Pedra foi roubada.”